seta

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Sargaços no mar

20/12/2014 09:06

 

Havia sargaços na areia, em meio a pegadas desertas que logo mais se apagariam com a subida da maré. Apagar-se-iam como a miragem de alguém que por ali passou, e deixou como um carimbo de seus pés, as marcas do seu caminhar na praia. E que o vento e as águas bravias não respeitarão, nem perguntarão de quem foram àqueles pés que ali pisaram, nem o que fizeram na praia, nem que destino tomou aquela trilha. Tudo nas ondas se funde num nada sem perguntas nem respostas. Como palavras escritas na areia, segue a vida a escrever seus dias na efemeridade das horas. E os sargaços melancólicos de serem desprezados pelo mar, servem agora de pouso as lavandeiras noturnas. E as invejam pela falta de mobilidade quando as vêem alegres a correr pra lá e pra cá, próximo as marolas; e as observam em seus vôos rasantes e em suas fugas para os coqueiros, onde acham ser abrigo seguro. Triste sina a dos sargaços, da sua solidão, nesta relação de amor e ódio com o mar que os põe pra fora, e depois os traga de volta as águas. Como os ironizasse pela falta de opção, por serem pisados e xingados por todos que não os enxergam, como verde vida nascida em águas limpas. E como filtros,  estas algas absorvem as agressões do meio ambiente, e resistem em proliferar-se.

Pus-me a caminhar na praia naquele começo de noite, até certo momento que me bateu fadiga. Na volta do percurso, ao passar defronte a colônia de pescadores, percebi reinar o silêncio do cansaço das jangadas. Já não havia por lá nem pescador nem peixe, não havia mais labuta nem a alegria da rede cheia, tão pouco o burburinho de gente a procura de um pescado fresco. Havia sim, àquela sensação de que o dia foi consumado, que a parte que compete àqueles homens do mar fora cumprida. Mas no breu da praia, entre os coqueiros, ainda havia velas soprando em jangadas altivas para o horizonte. E este é o sinal de que ainda haverá peixes, peixes de águas profundas e límpidas, porque ainda há plânctons, ainda há mar, e ainda há pescador.

Sentei-me na pedra em busca de algum conforto físico, procurando refazer-me do cansaço. Veio-me no pensamento o desespero de uma mãe ao celular por esses dias, lá no burburinho da cidade, preocupada com o comportamento de seu filho; coisa muito comum hoje em dia. Quando levantei os olhos pro vazio noturno, na pequena luz em frente ao bar, havia um jovem casal que brindava na água doses de caipirinha como se fosse champanhe. Tentavam segurar os copos no ar naquele reboliço das ondas. Por um momento, saíram da água, pegaram outra dose, e entraram no mar outra vez. Falavam alto, se abraçavam e bebericavam. No fundo, isso é o que impulsiona. E foram ficando ali; a mercê da brisa, das águas, e das areias dos sargaços.

cronicjf@gmail.com

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Um olhar sobre a areia

06/12/2014 14:00

 

Havia um saveiro solitário na praia, inclinado um pouco pra direita, inspirando um ar de melancolia em frente às águas banhadas de sol, num dia cheio de vida e cores no horizonte costeiro. Entretanto, aquele barco pesqueiro na areia estava quase a tocar nas marolas da maré baixa, como tivesse a espiar e a invejar os outros barcos parados dentro do mar, num balanço maneiro e lento, quase imperceptível a um olhar distante. Em sua madeira respirava a alma da marcenaria naval, na arte de mãos construtoras pegadas na prana e talhadeira, a moldar a perfeita forma de flutuar num equilíbrio simétrico e audáz. E em cada toque do artesão, o barco vai nascendo, enquanto ele já o imagina pronto como se fosse o primeiro filho, o mais perfeito e o mais seguro para os embates nas águas profundas. Por um momento, o pescador trás em sua memória toda a sua história a beira do mar: seus amores, decepções, medos, dificuldades, seus causos, em fim, tudo vem à tona em suas reflexões diante do seu labor.
A sina do saveiro é abraçar as águas inquietas sem medo de arriscar-se. Seu natural, é a busca do pescado, transportar homens destemidos e obcecados por aventuras sem fim, em dias espelhados de sol e noites escuras e estreladas. E contar histórias de agulhinhas e do gigante peixe marley; de ter recebido a ronda de tubarões famintos; de ter levado uma pancada no casco por uma grande arraia; além dos perigos infindos nas rotas tortuosas do oceano. Porém, aquele saveiro na areia era a própria imagem da solidão; tão irresoluto, mas com esperança. Certamente, uma mão benigna e solidária antes da maré encher, iria tão logo atirá-lo no mar. E aí sim, ele então embelezará a praia com sua presença lá dentro depois da arrebentação. Sua âncora descerá segura, sua corda o prenderá como um cão de caça. Ele beija a água fria, e suas acomodações esperam para logo mais a noite partir em busca do pescado. E se eu pudesse hoje estar nele, minha alma seria de um menino que um dia sonhou em ser um capitão do mar. E ouviria os sons dos seres encantados do breu marinho, do canto da sereia, e teria a visão da rainha deusa de Atlântida – o continente que fora tragado para as profundezas.
Mas nada disso há de acontecer. Acho que devo sair da água, não há ninguém a minha volta, dei umas braçadas a mais, por isso fiquei aqui sozinho a pensar nessas coisas, enquanto as águas chumiscavam no meu rosto no reboliço da maré. E pra completar, uma bela moça de maiô preto passou caminhando lá na areia meio cabisbaixa. Eu não admito sua beleza afetada por algum tédio interior. Até porque hoje não é dia de enxergar coisas tristes. Ao contrário dessa moça, o saveiro não estava triste, apenas melancólico. A melancolia é diferente da tristeza, é algo que tem a ver mais com saudade, e sendo assim, é um sentimento bom. Um saveiro solitário na areia é um quadro que se nota na praia.
As sombrinhas na areia estão a me chamar, e não tenho alternativas, abusei um pouco no mergulho. Na beira da praia deve haver alguma coisa divertida pra se ver. E mal cheguei fui logo vendo a mulher do acarajé batendo a massa no caldeirão com muito gosto e disposição. Estou certo de que esta mulher enquanto bate a massa, está pensando em encher o bucho de todo mundo de acarajé. Seus olhos em vertigem devem está vendo sair do caldeirão, cédulas pra tudo que é lado flutuando em sua fronte. E os banhistas sem refrega, democraticamente sob o sol, expõem seus corpos ao bronze da maresia.

 

*É cronista membro da AAI e da AAC.

cronicjf@gmail.com

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Mudou a paisagem

15/11/2014 09:39

 

Lembro-me de quando vi meu primeiro cabelo branco na cabeça, e cogitava na época em não aceita-lo. Jamais poderia aceita-lo, porque no dia anterior ele não existia. Sequer, pude vê-lo quando me olhei no espelho na noite anterior, parecia que tinha surgido do nada. Revoltei-me com o tempo; não podia ser real aquilo, era um desacato comigo naquela manhã clara de primavera. Não tive outra reação se não puxá-lo e arrancá-lo com as pontas dos dedos. E quando fiz isso, sosseguei; e voltei a mim outra vez. Esqueci o fato, e deixei o tempo correr a vontade, com o mundo, e comigo mesmo. Repentinamente, lá na frente, outra vez mais uma decepção no espelho, e dessa vez foram quatro cabelos brancos. Fiquei fitando-os, mas não os arranquei, percebendo que o processo era irreversível e continuado. Eu estava caminhando rumo aos quarente, mas ainda faltava um quinquênio. Eu jamais tinha pensado na ideia de que envelhecemos, porque enquanto não se faz um tento na caminhada, tudo nos parece a favor; brincamos e zombamos do tempo, o tempo inteiro. Somos o super-homem nesta idade, o superstar ou qualquer coisa do gênero, e nem lembramos dos limites que a vida nos impõe. Por aqueles dias, a oftalmologista tinha me dito que quando eu chegasse ao marco quarenta, o relógio dos meus olhos iria mudar, e eu teria que usar óculos de perto pra ler. Afirmava ela que isso acontece com todo gênero humano, dentro dos prognósticos da medicina. E não deu outra, desde os quarenta que emplaquei meus oclinhos de ler.

Outro fato inesperado de algum dia em nossas vidas, é também aquela ruguinha matinal que o relógio biológico lhe trouxe repentinamente. Da mesma forma, você não sabe quando começou, mas ela está ali surpreendentemente na sua cara, como tivesse a lhe dizer, cheguei! E assim, os dias vão amansando suas vaidades, seus medos, e sua autoestima de quase invencível. Você vai sendo vencido aos poucos, porque seria um pânico para qualquer um envelhecer repentinamente. O processo é dosado entre o relógio biológico, com pitadas de amadurecimento mental e espiritual. Você vai vendo suas ruguinhas aparecerem lentamente junto com seus cabelos brancos, ao tempo em que sua visão da vida também vai mudando, e tornando-o mais forte interiormente e mais ponderado. É uma compensação formidável, no que pese todos nós querermos a juventude eterna do corpo como prêmio maior. Por isso que tudo tem suas compensações e conformismos, porque é de certa forma consolador para o ser humano, olhar para trás, e ver sua caminhada e seu aprendizado do caminho. E neste momento da vida também, sem perceber, o sujeito se ver mais humano, mais solidário, mais pai, mais avô, porque compreende que a vida é um sopro, e que só nos resta tentar viver em paz, quando possível esta paz. É a sabedoria da vida que os ventos vão trazendo, é o momento de ser conselheiro, de ajudar sem interesses vis, de reencontrar verdadeiros amigos; é um momento interessante neste aspecto. E é um momento perigoso também quando no futuro, no ápice da caminhada, a solidão lhe bate a porta, trazendo-lhe o fel da ingratidão, da indiferença, e da desumanidade.

Hoje, depois de mais um dia, no começo da noite, como sempre, fui a varanda tomar um ar. Lembrei-me de algumas varandas que tive no passado, como uma térrea toda gradeada numa rua deserta. Outra no centro de uma grande metrópole em que eu ficava a noite olhando os letreiros luminosos nos arranha céus. Tinha uma que ficava de frente pro mar do meu nordeste mais ao sul, e outra de frente para um bosque; inspirador. Sem contar aquela em que havia duas frondosas mangueiras, e no horizonte via-se o nascer do sol e da lua, subindo divinamente para o céu. Todas foram varandas passadas em que deixei meus momentos, meus pedaços de cotidiano, meu olhar. Agora, olho num terreno ao nordeste de minha varanda, e vejo um alicerce de um novo prédio que vai subir. E digo pra mim: a paisagem vai mudar. Fico ali um pouco num olhar contemplativo. Entrementes, olho para esquerda, e dou uma rápida espiada no mar.

cronicjf@gmail.com

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Noite em pedaços

06/10/2014 09:12

 

Sim, as vezes nos ocorre pensar  estar em algum lugar,  num lugar que em determinado momento tocou-lhe em lembranças  saudosas de uma noite fria de asfalto molhado, e quase sem tráfico algum. E que você ficou naquela esquina de certo restaurante olhando as luzes discretas da rua, e a ouvir os acordes de um piano tocando de mansinho no ar. Naquelas altas horas, no silêncio daquela rua, atravessa em passos lentos até a outra esquina, de cabeça baixa, a refletir e a pensar no vazio que lhe inundara. Pois ela, a mulher que lhe completaria aquela noite, que tocaria em suas mãos olhando nos olhos enquanto segurava a taça de vinho na mesa, ela, esta mulher, naquele instante era uma mulher imaginária, uma espécie de deusa perfeita cheia de mistérios e magias que acalentaria todas suas aventuras e prazeres carentes de sua solidão. E você pergunta-se instintivamente sobre tudo, e conclui, não fosse aquela santa solidão sentida com a brisa fria em seu rosto agasalhada em sua jaqueta preta, não sentirias o fulgor nem o emaranhado de sentimentos soltos dentro de si naquele momento.

Então começa a pensar olhando as últimas luzes da rua, qual seria o número do telefone dela, e em qual janela acesa estaria. Talvez pudesse ligar e ouvir uma voz meiga e doce, ou pudesse encontra-la e vê-la lindamente vestida lhe esperando pra sair. Mas, voltando a olhar pra si, ver que nada existe, e tudo é vazio naquele lugar preenchido por seus pensamentos.  Pensa em voltar, e seguir o som abafado do piano lá dentro que distrai, e alegra pessoas eufóricas que não estão nem aí parta noite vazia lá fora. Divertem-se no recinto entre uma dose e outra, pensando que são felizes. Porém, a felicidade, ao contrário, está dentro de você numa rua vazia e fria, naqueles seus sonhos e desejos da mulher ausente. Não adiantaria entrar no recinto outra vez, porque lá dentro tudo é chato e ausência. De uma ausência de ninguém, de nada, apenas de uma mulher que faz morada em sua alma, carimbada em suas doces palavras. Sem ela, tudo é turvo, desejos amorfos, nenhuma viagem, nenhum lugar. A mulher perfeita, a deusa dos Olimpos, a que lhe daria asas de pássaros noturnos com lua e estrelas, está em você sempre terna, e lhe faz sorrir em longas conversas e abraços. Esta mulher quimérica perdida no vácuo de uma noite insana de sentimentos soltos, é a mulher da paixão sempre acesa.

*É cronista membro da AAC e da AAI.

cronicjf@gmail.com

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PGM - breve histórico

10/09/2014 09:51

PGM - breve histórico.

A Procuradoria Geral do Município, historicamente, tem sido uma segura guardiã do Direito da municipalidade, e das decisões do Chefe do Executivo. É o Órgão perscrutor da lei, onde nada se faz sem o crivo de seus escorreitos pareceres. Berço de juristas destacados desde seu nascedouro, tendo em seu passado, personalidades jurídicas como os Procuradores, Floriano Ivo, Valdemar Bernardes de Mello, Carlos Melro, José Fernando Lima Souza, Cleiton Sampaio, Claudio Vieira, Pedro Jorge Cansanção, e Diógenes Tenório. 
Na gestão do então Prefeito Guilherme Palmeira em 1989, com o Procurador Geral Cleiton Sampaio, e o Chefe de Gabinete José Carlos Santa Rita, a PGM passou por uma reforma administrativa que a preparou para deslanchar seu crescimento. Ao suceder o Prefeito Guilherme Palmeira, seu Vice João Sampaio dar continuidade a este trabalho com o Procurador Geral Diógenes Tenório, e o Chefe de Gabinete Jasson Ferreira Lima, ambos do quadro efetivo.Neste momento, a PGM adquire seu primeiro prédio próprio na Rua Afonso Pena, no Farol, porque até então era uma pequena sala anexa ao Gabinete do Prefeito. Por consequência disso, aumentara de duas para sete subprocuradorias especializadas, e aumentara toda estrutura administrativa do Órgão para o que ele veio a ser hoje, na Rua Pedro Monteiro, Centro, sob o comando do Executivo Municipal do Prefeito Rui Palmeira e do Procurador Geral Ricardo Wanderley.

PS- Em 1997 fora criado o cargo de Procurador Geral Adjunto, exercido hoje por Fernando Sergio Tenório de Amorim; até então o substituto do Procurador Geral era o Chefe de Gabinete, cargo este, exercido hoje por Luanna Mendonça.

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Primeira Edição © 2011