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O VERÃO DE 81- De Martha Medeiros

01/02/2012 23:38

Eu tinha 19 anos e nenhum plano para as férias daquele verão. Fazia faculdade de propaganda,
não estava namorando e andava roxa por um programa diferente, até que alguém da nossa turma deu a ideia de conhecermos uma praia em Santa Catarina chamada Bombinhas. Era janeiro. Não lembro exatamente quem tomou a iniciativa de alugar a casa, só sei que éramos 10 - cinco homens e cinco mulheres. Os guris foram na frente, de carro. Nós, gurias, chegamos um dia depois, de ônibus. Desembarcamos em Florianópolis e o Fernando foi nos buscar na rodoviária num Fiat 147 vermelho. Bombinhas pertence ao município de Porto Belo. Disso eu sabia, já estivera lá com meus pais numa viagem alguns anos antes, num inverno gelado, e só do que eu lembrava era de um lugar ermo, mas agora seria diferente. E foi.
Antes que a malícia corra solta: apesar de formarmos cinco casais, ninguém era namorado de ninguém.Minto: a Katia e o Geraldo estavam começando a ficar, mas tudo na maior inocência. De resto, éramos mesmo uma turma de amigos. O clima era do seriado Friends, versão praiana. Além do Geraldo e do Fernando, havia o Theo, o Caco e o Serginho. Além da Katia, havia a Neca, a Karin, a Claudia e eu.

Se você frequenta a Bombinhas de hoje, não a reconheceria. No verão de 81, era terra de ninguém. Na rua principal havia um ou dois botecos, um posto telefônico e uma farmácia. Nenhum hotel, nem supermercado, nem lojas, nem restaurantes, apenas as casas de madeira dos poucos nativos. Na beira da praia, mesma coisa: só alguns poucos casebres de madeira onde viviam os pescadores locais. Num dia de sol a pino, de ponta a ponta da praia, contava-se no máximo uns 15 guarda-sóis na areia, de outros aventureiros como nós. Era praticamente uma praia privativa.

Onde é que eu estava mesmo? Chegando com as gurias no Fiat 147 vermelho. Saímos da BR e então passamos por Porto Belo, onde fizemos compras no único supermercado que havia. Depois atravessamos lentamente os morros que dão acesso às praias. A estrada era medonha, de terra batida e cheia de desníveis. Passamos por Bombas, fantasmagórica, e chegamos finalmente em Bombinhas. Estávamos empoeiradas e cansadas. Largamos nossas mochilas no casebre e fomos direto pro mar. Aquele mar esmeralda. O Caribe logo ali no Estado vizinho.

Nossa casa era de madeira pintada de branco, com um pequeno jardim na frente. Dentro, havia uma minúscula antesala com um sofá e uma mesinha de fórmica. Ao lado, ficava o aposento maior: a cozinha. Havia um fogão, uma geladeira e uma mesa grande com algumas cadeiras. Três portas conduziam aos três quartos, e o único banheiro ficava mais ao fundo. Quem dormiria com quem?As donzelas resolveram que ficariam as cinco no mesmo quarto, enquanto os guris poderiam se dividir entre os outros dois. E no primeiro dia foi assim. Três guris num quarto, dois em outro, e cinco malucas amontoadas num cubículo onde havia uma cama de casal. A ideia era revezar: duas na cama e três no chão, em colchonetes. Nossa integridade estava assegurada. Essa decisão durou exato um dia. Nos outros, não me pergunte onde dormíamos. Era cada um por si, sem frescura, sem lugar marcado, sem clube do bolinha e luluzinha, todos dividindo camas, colchonetes, redes. Tinha gente que dormia na cozinha, na sala, no jardim, na beira da praia. Onde caíamos, ficávamos. Era a graça da coisa.Acredite se quiser: tudo na maior pureza. Promiscuidade zero. Só farra.

Nos fundos da nossa casa ficava um outro pequeníssimo cômodo, do tamanho de uma guarita de salva-vidas. Era ali que dormia o proprietário da casa, um pescador chamado Sabão. Foi para onde ele se mudou com a mulher e as duas filhas pequenas durante os dias em que alugou a casa dele pra nós. Era alto, loiro, esquelético, um príncipe escandinavo com a pele curtida pelo sol, maltratado pela pobreza, mas totalmente de bem com a vida. Discreto, não perturbava em nada. Saía de manhã para pescar em seu barco e à tardinha voltava. Muitas vezes, vendia seu peixe para nós, e logo descobrimos que ele sabia preparar uma caipirinha como ninguém, e de pescador diurno passou a barman noturno, extraindo mais uma fonte de renda daquela turma de gaúchos que tinha fome (e sede) de diversão.

Durante os 10 dias em que ficamos em Bombinhas, choveu exatamente nada. Nuvem, também não lembro de ter visto. Acordávamos, tomávamos o café da manhã e, depois de dar exaustivos cinco passos para fora da casa, colocávamos os pés na areia branca, com aquele marzão em frente só pra nós. Nadávamos, caminhávamos na praia, jogávamos frescobol e até conseguimos descolar uma rede para improvisar uma quadra de vôlei. No final da tarde, dois ou três de nós iam até Porto Belo comprar mantimentos.Alguns iam até o posto telefônico para ligar para Porto Alegre e saber notícias do mundo. Não havia tevê na casa. Apenas um pequeno toca-fitas. Sim, ouvíamos música através de fitas K-7. Não existia celular, nem DVD, nem notebooks. Éramos 10 Robinson Crusoe.
Um dia resolvemos explorar o território em volta. Depois de muito sobe e desce por estradinhas íngremes, de muito comer poeira e de cruzar com bichos estranhos pelo caminho, descobrimos uma praia ainda mais selvagem, Quatro Ilhas, onde tomamos o banho de mar mais inesquecível dessa temporada.
À noite, sob uma luz fraca, brincávamos de mímica, fazíamos torneios de canastra e improvisávamos uma churrasqueira na beira da praia: cavávamos um buraco, acendíamos o fogo e grelhávamos os camarões e os peixes que o Sabão trazia. O luau só não era completo porque ninguém lembrou de levar violão. Ninguém tocava, que eu saiba. Mas havia uma gaita, acho.

Ao chegar em casa, todos queriam apenas um banho e descansar, mas não podíamos prever que a noite seria ainda mais agitada do que o dia. Dessa vez, por um motivo nada agradável. A movimentação de pescadores no fundo da nossa casa pressagiava o pior. Foi com tristeza que soubemos que Sabão havia levado um choque fatal. Morreu eletrocutado nos fundos da nossa casa - melhor dizendo, da casa dele.

Em choque ficamos nós. Quantos anos ele teria? Não mais que 30. O que podíamos fazer pela família? Os guris acompanharam o corpo até Porto Belo e nós ficamos para dar assistência às duas pequenas meninas, pequenas mesmo. Não lembro da mulher do Sabão, mas devia estar cuidando dos trâmites em Porto Belo também. Passamos a noite praticamente em claro, atordoados com aquele súbito desaparecimento.
O dia seguinte foi de uma tranquilidade respeitosa, todos mais silenciosos do que de costume, conversando em voz baixa na beira da praia, mas retomando aos poucos o nosso cotidiano de estudantes em férias, faltava muito pouco para ir embora.
À noite, mais um torneio de canastra. Todos com as cartas na mão, comprando e descartando, baixando trincas, sequências, até que o primeiro de nós bateu. E na hora de pedir para lhe alcançarem o morto, não teve dúvida: "Me passa o Sabão". Foi a primeira gargalhada depois da tragédia, aquele riso nervoso diante da piada politicamente incorretíssima. Passados 30 anos, até hoje, quando nos reencontramos, "me passa o Sabão" é a senha para chamarmos as lembranças de volta..

. Um dia de manhã cedo, surpresa: estávamos todos na beira da praia quando vimos um barco se aproximando. Era uma lancha. Uma lancha realmente grande, com um piloto. O moço chegou bem perto, saltou da lancha e veio até nós para se apresentar. Ninguém conseguia acreditar: o pai de um dos guris do grupo era amicíssimo de um empresário de Florianópolis, o dono da lancha, que gentilmente havia cedido seu barco e incumbido seu funcionário de ficar o dia todo à nossa disposição. Era tudo o que precisávamos: sair da rotina! Fechamos a casa e subimos todos na lancha. Fizemos um longo passeio até Itapema e no caminho encontramos prainhas desertas que convidavam para um pit stop e um mergulho. Na volta, a lancha atracou no cais de Porto Belo e almoçamos às quatro da tarde por conta do tio rico - a essa altura o empresário já havia virado tio - no inigualável restaurante Petiskão, onde entramos cantando uma marcha de Adoniran Barbosa e saímos mais pra lá do que pra cá, de tanta cerveja. Tudo bem, não estávamos dirigindo mesmo .

  Então chegou o dia de retornar para casa e tocar cada um a sua vida. Fernando hoje mora em São Paulo. Karin morou por lá também, mas voltou. Claudia mora em Florianópolis e é atriz de teatro. Theo é velejador. Serginho rodou o mundo todo e semana passada fomos avisados que está em Porto Alegre. Caco é engenheiro. Neca é pedagoga. Katia e Geraldo, que começaram essas férias numa ficação inocente, comemoraram bodas de prata ano passado. E eu estou aqui contando essa história.

 

Férias, há de diversos tipos. Mas aquele verão de 81 nunca saiu da nossa memória porque, além de ter selado uma amizade que dura até hoje, foi a concretização de um ideal que hoje poucos conseguem atingir. Nós passamos 10 dias em contato direto e ininterrupto com a natureza, numa praia paradisíaca, limpa, pouco habitada e silenciosa, sem conexão com aquilo do qual queríamos realmente tirar férias: da bagunça da cidade, dos compromissos urbanos e de nossas adoradas famílias, que, como todas as famílias, eram controladoras. Estávamos uns com 18 e outros com 19 anos, comemorando a maturidade recém conquistada e nos preparando para a vida que cada um construiria a partir dali. Cinco garotos e cinco garotas 100% wireless, no sentido mais verdadeiro do termo.
Se suas férias de verão não puderem ser assim, que ao menos tenham esse espírito. Feliz 2012!

cronicjf@gmail.com

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Um sopro de música no ar

06/01/2012 00:40

Veio-me pela janela, repetidas e insistentes frases musicais, tiradas de um saxofone de certo desconhecido aspirante de músico, residente no quarteirão. Todo dia lá está aquele jovem com seu instrumento inundando a rua com sua arte. No começo, fazia seu sax gemer meio desafinado, o que não era nenhum pecado, afinal, disse certa vez Tom Jobim em uma de suas canções, que no peito de um desafinado também bate um coração. Ultimamente ele teve grandes progressos, pois já consegue articular com certa segurança algumas linhas melódicas. Seu instrumento sopra solitário, levando aos ouvidos da vizinhança a linguagem universal da música, que é sutil, acalentadora, encantadora não só para os homens, mas também para os animais, e creio eu, que até para as plantas.
Lembro-me ainda menino, na porta do salão sede da Banda de Música Municipal, bisbilhotando o ensaio geral. De todos os instrumentos, o que mais me tocava no coração era exatamente o saxofone. Concomitantemente, a tuba com seu contraponto no baixo ainda me dava uma sensação que só os ouvidos mais apurados podem sentir. Somando-se a toda orquestração, aquela base rítmica e segura da tuba e as entradas realçantes dos saxes no dobrado, provocavam-me verdadeiros êxtases no espírito. E eu, ficava ali vendo as broncas que o mestre regente dava nos músicos, na intenção de tirar deles a melhor execução possível. Igualmente, via sua cara de entusiasmo quando eles respondiam no sopro e em harmonia aquilo que estava grafado nas partituras.
Nos últimos tempos, tenho sentido que o ensino da música erudita anda meio capenga. Tenho esperança e me animo toda vez que ouço esse garoto saxofonista do bairro, com sua força de vontade de auto-superar-se e dominar o instrumento nas suas primárias execuções. A formação musical para a juventude é fundamental em seu currículo para a vida, e esse nosso protótipo de Pixinguinha já descobriu isso. Que bom!Ela é como a matemática, ajuda a raciocinar, por outro lado, é disciplinar e é cidadã. Musica nas escolas ajuda a formar cidadãos mais cultos e menos violentos. É um elemento transformador para uma sociedade emergente que aspira dias mais pacíficos e mais alegres. O quê seria do mundo sem as cores e sem os sons? O quê seria do homem se não tivesse descoberto a música? Como bem definiu Victor Hugo, a música é o barulho que pensa. Isso me faz lembrar do saudoso cônego Helio Lessa, quando em um de seus sermões no altar do Livramento, disse: “a música é a única das artes que acompanha a alma do homem para o céu”. Foi bem original essa concepção divina, por parte daquele grande orador sacro de nossa terra, em um de seus grandes momentos de elogios às peças clássicas.


Comenta-se no meio cultural que no Estado de alagoas existe apenas um músico empregado. Que pena... Que esquecimento... logo com um povo tão musical, como todo brasileiro, que tem a música no sangue. É de fato um contra-senso. Lembremo-nos sempre do que fizeram pela música no Brasil esses dois nordestinos pernambucanos, os maestros: Guerra Peixe e Moacir Santos. A nível local, encarnemos-nos no espírito dos maestros Fonfom e Heckel Tavares, os quais com sua batuta alagoana conseguiram reconhecimento nacional. E tantos outros que com ideal e resignação labutam nesta seara por levar as pessoas o conhecimento da boa música. Firmemos bons augúrios para que daqui pra um futuro próximo, tenhamos uma política pública mais voltada ao apoio dos conservatórios; das fanfarras; dos orfeões; e de mais professores especializados nas escolas públicas. Sonhemos com toda essa criançada, dedicando um pouco de sua explosão de hormônios e energia, para essa arte, que é fundamental na complementação da formação de um homem civilizado.

cronicjf@gmail.com

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O Réveillon de Mané Pina

30/12/2011 14:59

Há uma palavra uníssona na boca do povo quando chega o fim do ano: é a tal da esperança. Cada um vai traçando a vida como pode, e quem não pode se sacode, por que, esperança de pobre é bola nos peito e tocar pra frente. Pois andar atrás do prejuízo não é boa estratégia. Mané Pina, por exemplo, andou pensando nessas coisas por esses dias, e, vendo que a vida de pobre é mesmo madeira, não deixa de ver cada dia as manchetes apocalípticas da vida severina. Se deu fé do caso das casas dos retirantes da cheia, e comentava que se o governo federal não der aquelas casas de graça é uma grande sacanagem com aquela população sofrida. Muito embora, despreocupado com seu semelhante, como sempre foi, o caso das casas nas mãos da Caixa é um perigo, pois nesses tempos de hoje nada é mais de graça, nem mesmo injeção na testa. Se as casas ficarem de graça não é nenhum favor, é obrigação do governo, que bateu todos os recordes de arrecadação de impostos este ano, e fez o país passar a ser a 6º economia do mundo. Tem muito dinheiro pra derramar em benefício do povo. O ruim é o sistema dessa economia, em que os ricos ficam mais ricos, e os pobres só aumentam. Mas, aí já é mais quinhentos, e o pior é que ninguém vai melhorar essa situação, por que o problema é mundial e insolúvel; conformemo-nos.

Mané Pina, por outra, pensara que sua sorte fora não gastar tudo que ganhava; e realmente foi. Sobreviveu a algumas dificuldades, e sempre sobrava um troco para uma emergência qualquer. Cogitava não ser fácil o sujeito perder tudo e ficar com o bolso vulnerável a qualquer bobagem. Lembrara mais uma vez do pessoal da cheia que aguarda suas casinhas, e agradeceu a Deus morar perto de um mar tranquilo que não lhe causa esses percalços das cheias, e nem lhe ameaça com tsunamis. Ficou feliz com essas suas deduções, e mais ainda por que depois de pagar a última parcela de seu consórcio, em longos cinco anos, finalmente tirou seu carro zerinho para romper o 2012 de carro novo. Mané Pina está entre os que colocarão mais um carro novo nas ruas, dando sua contribuição para o caos do trânsito. Mas, seu carro é flex, e assim sendo, contribuirá com o meio ambiente. No que pese ele não ter essa preocupação, porque não tem em si essa visão global.

Sendo um indivíduo seguro, o chamado mão de onça, ao passar por um anúncio de um réveillon privado, lhe deu até arrepio com o preço do individual. Disse que não iria nem pro de graça, para preservar seu carro das ruas e dos vândalos. Resolveu, antes, dar um passeio no shooping; lá, o estacionamento é mais seguro, porém, também paga-se três reais por cada entrada, e não tem nem coberta de sol. É uma exploração e uma falta de respeito com os donos dos veículos. Mesmo assim ele fora, e chegando na cancela de entrada do estacionamento, ouviu a vóz eletrônica da moça que disse:

- Favor apertar o botão verde.

Mané Pina apertou, e quando a cancela abriu, a vóz da moça disse de novo:

- Vá em frente e boas compras.

Ora, para um pão duro que nem ele, isso fora uma afronta. Intimamente, ele dizia pra si mesmo:

- No momento, não estou comprando nada, só vendendo.

quando sua mulher desceu do carro, ele logo adiantou:

- Êpa! Nada de compras!

Seu coração, entretanto, murumurava:

- Vai lá proibir mulheres de gastar no shooping?! Tem jeito não, tem jeito não...

Por fim, Mané Pina que sempre gostou de passar o réveillon na beira do mar, esse ano seu pai de santo não pôde lhe acompnhar nas oferendas, e mandou o pai pequeno do terreiro com ele. Os dois entraram no mar com água até o pescoço. Mané Pina deu um tombo deixando cair pro fundo do mar as oferendas,  e quase se afogando foi arrastado para areia por uma braçada forte do pai pequeno que era um negão tipo gladiador.  Ali mesmo, botou toda água pra fora de suas entranhas. O pai pequeno então lhe falou:

-começou bem 2012, hein? antes da virada fostes salvo por Iemanjá. Agora, aproveite a atenção que o orixá lhe teve, agradeça, e entre de novo no mar, mesmo com essa maré mais alta.

E Mané Pina respondeu:

- Já agradeci, e ela até me adiantou que esse ano o orixá regente é Xangô. E disse mais, como Xangô  é a Justiça, ela ordenou que você agora é quem vai entrar no mar; e sozinho, visse?

cronicjf@gmail.com
 

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Monólogo Do Natal - De Ademar Paiva

23/12/2011 10:26


Eu não gosto de vancê, Papai Noé!
Tamém não gosto desse seu papé de vendê ilusão pra tar
da burguesia.
Se os meninu pobre da cidade soubessem o desprezo qui
o se tem, pelos humirde, pela humirdade eu acho que eles
jogava pedra em sua fantasia.
Você talvez vancê nem se alembra mais.
Eu cresci, me tornei rapaz, sem nunca me esquecê,
daquilo que passô.
Eu lhe escrevi um biete, pedindo um presente a noite
inteira eu esperei contente, chegou o sor, mais vancê
num chegou.
Dias depois, meu pobre pai, cansado, me trouxe um
trenzinho véio, enferrujado, e me ponhou ansim na
minha mão e me oiando baixinho me falou: toma, é pra
vancê, foi papai noé que mandou. E vi quandu ele
adisfarçou umas lágrima cum a mão.
Eu alegre e inocente nesse caso, pensei que o meu
biete embora cum atraso tinha chegadu em suas mão, no
fim do mês.
Limpei ele bem limpado, dei corda, o trem partiu, deu
muitas vorta, meu pai então se riu e me abraçô pela
urtima vez.
O resto, eu só pude cumpreender quando cresci e
comecei a ver as coisa com a realidade.
Um dia meu pai chegou ansim, cum quem tá cum medo e
falou pra mim: me dá aqui aquele seu brinquedo daqui
vou trocá por outro na cidade . Entônce eu entreguei
pra ele o meu trenzinho quase a soluçá.
e, como quem não quer abandoná um mimo, um mimo que
lhe deu, quem lhe qué bem, eu supriquei medroso: ?ô
pai eu só tenhu ele! Eu num quero outro brinquedo, eu
quero aquele. por favor pai, num vá levá meu trem?.
Meu pai calô e pelo seu rosto veio descendo uma
lágrima que, inté hoje creio, tão pura e santa ansim
só Deus chorou!
Ele saiu correnu bateu a porta, ansim como um doido
varido minha mãe gritou; pra ele: José! ele num deu
orvido. Foi embora e nunca mais vortô.
Vancê, Papai Noé, vancê me transformou num homem que
hoje a infância arruinô. Sem pai e sem brinquedo.
Afiná, dos seus presentes, num ai um que sobre da
riqueza do menino pobre que sonha o ano inteiro com a
noite de natá.
Meu pobre pai coitado, mar vestido, pra num me vê
naquele dia desiludido, pagô bem caro a minha inlusão,
num gesto nobre, humano e dicisivo, ele foi longe
demais pra me trazer aquele lenitivo, tinha robado
aquele trem do filho do patrão.
Quando ele sumiu, pensei que tinha viajadu, no
entanto, minha mãe despois deu grande, me contou em
pranto que ele foi preso coitado e tranformadu em réu.
Ninguém pra absolvê meu pai se atrevia.
Ele foi definhando na cadeia, inté,qui um dia, Deus
entrou na sua cela e o libertô pro céu.

cronicjf@gmail.com
 

seta

As renas de Papai Noel

18/12/2011 11:25

Quando me deparei naquele começo de noite com a decoração luminosa da faixada de um prédio, percebi duas altivas renas puxando o trenó de um Papai Noel sorridente, representando muito bem o espírito natalino. A bagagem de presentes do velhinho, passa a mensagem de que quando o ano termina, há de haver uma compensação para o trabalho e um agrado para as crianças, firmando nelas a imagem de que o vovô é sempre simpático e bom, e por isso merece ser amado e venerado. As renas, como tração motora do trenó, olham pra frente desbravando o novo tempo que há de vir. Abrindo assim, os horizontes, mostrando que a vida é um eterno caminhar em desafios constante, e vontade de vencer. Papai Noel, levado no trenó com sua bagagem, também é a representação do dever cumprido, e da retribuição que se dá dos resultados alcançados ao longo da vida. E essa retribuição, de modo especial, dar-se-á as crianças que são as flores em botão, a safra do futuro que se rega e se cuida. E o natal é mais ou menos assim: um balanço de um tempo que passou, e a esperança de um tempo vindouro. Com o Papai Noel e com as renas, faz-se a simbologia de um mundo que precisa ser solidário, que confraterniza e assimila o espírito de paz do nascimento de um menino Deus, que era rico, e se fez pobre por opção, legando sua mensagem de amor para o mundo. Isso nos parece uma inversão ao consumismo dessa época. A festa sobreponhe-se a singela mensagem natalina, para desencadear a gastança. Quem está no aperto do orçamento, não vai nesse momento deixar de dizer feliz natal, por que ninguém consegue calar estas palavras neste período do ano, mesmo vendo o dinheiro fácil nos bolsos de alguns, e a carestia na mesa de muitos. E todos comemoram como podem, o natal está acima da inflação, da corrupção, da doença e da saúde, das injustiças, da abastança e da vida severina; porque o natal é um estado de espírito que paira no ar. Os que estão nas poltronas, ou os que estão na geral, têm o mesmo sentimento quando dizem, feliz natal!
O que me atina neste momento, é que o ano passou tão rápido que até parece que o natal foi ontem. Disse isso hoje à balconista da farmácia, que prontamente concordou comigo. Lembrando do que fiz o ano passado, não quero acreditar que já passou tantos dias. Mas a verdade é que passou, e que estou mais velho. Contudo, não posso desacelerar esta vida hi-tech que não deixa mais ninguém ficar fora da velocidade virtual das coisas. O mundo virtual e as comunicações impulsionaram o tempo, mas no natal a gente faz algo ainda como de costume. Dar-se um tempo, faz-se um balanço, confraterniza-se com os colegas de trabalho, se ganha um extra, visita alguém, ou encontra casualmente como que um milagre; alguém que não vemos a um bom tempo. Sim, porque no natal milagres acontecem nos pequenos detalhes, mesmo dentro da correria que fica o trânsito, e das coisas que se tem a fazer nesta época. Como me ocorreu o coração se alegrar, vendo numa rápida parada, naquela faixada do prédio, um Papai Noel luminoso, sorridente, puxado no seu trenó por duas renas que aparentavam vigor. E o natal é bem isso, a gente parar para ver as luzes, as cores, as pessoas contagiadas pelo clima da festa. Em fim, deixar-se levar pela leveza destes dias que passam rápido, e que só nos encontrará outra vez, no ano que vem.

cronicjf@gmail.com
 

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Do Mar a Lagoa

03/12/2011 00:12

A vida é feita de coisas singelas; cada vez mais me convenço disso. Nosso cotidiano é acalentado de pequenas centelhas que enlaçam uma sucessão de pequenos atos e eventos, os quais, nós chamamos de rotina. E quando esse trivial é quebrado por pequenos imprevistos, temos aquele despertar e aquela impressão de que apanhamos de saudade; de lembranças ou de surpresa. Não são masoquismos da alma essas pequenas tapas que as palavras nos trazem nas nossas relações do dia-a dia. Talvez seja o lado lúdico da vida; de como cada dia se apresenta com sua própria verdade, lucidez ou loucura. É lúcido e real está no contexto de uma sociedade, dando sua contribuição para continuidade e progresso de qualquer coisa, por mais simples que seja. Da mesma forma, terminar o dia com o sentimento do dever cumprido, ou então, de que nada fez. Enfim, tudo isso está dentro de uma visão existencial pragmática e realista. Por outro lado, é uma santa loucura contemplar o mar e seu ocaso; e logo mais a noite o céu estrelado; e ainda, enxergar a beleza das pedras e dos animais, e perguntar a si mesmo: qual é a minha odisséia neste reino da criação? É um feliz tormento viajar nestas elucubrações oníricas; posto que seja incerteza, é feliz porque é poesia. Aliás, a poesia tudo salva, tudo releva e tudo explica.
E aí o dia vai seguindo entre um cafezinho e um bate papo pra relaxar; algum aperto de mão para se brindar a existência; um toque de sedução no olhar e num sorriso de mulher; um tempero diferente na comida; a notícia de que o menino vai mal na escola (porque quando vai bem ninguém diz nada); aquela olhadinha fundamental no jornal; e até aquele boleto bancário pra pagar. E muito mais! Muito mais! Neste coquetel de pequenos fatos, somos brindados e tragados hodiernamente pelo tempo rei, senhor de todas as coisas.
Hoje por exemplo, em direção ao Pontal da Barra, enquanto trafegava pela Rua Cabo Reis, ocorreu-me ver um grupo de meninos tomando raspadinha. Lembrei-me dos tempos de estudante em que havia um vendedor de raspadinha na porta do colégio. Naquele tempo agente apreciava muito o sabor maçã com coco, era uma mistura de gosto estrangeira com o sabor da terra. Atualmente, vejo que o distinto vendedor que servia o apreciável néctar a meninada tinha traços caboclos, parecia aposentado e demonstrava ser altivo e sorridente. Demonstrava uma extrema vocação para o comércio, e enquanto atendia a turma, tagarelava conversando como se estivesse realizando um grande negócio. Naquele intervalo de tempo, na rua, entre pessoas e veículos que passavam, foi o suficiente para que eu viesse a perceber um fato interessante. Eu não diria que foi uma descoberta porque eu já tinha ouvido isso do historiador Bernardino Miranda em certa oportunidade. Também com certeza o Vicente sabia; aliás, este velho e memorável topógrafo da Prefeitura, nosso gentil Vicente, conhecia cada pedaço de chão pertencente ao patrimônio público; era um verdadeiro arquivo ambulante da municipalidade. Na verdade, não é nenhum segredo, mas também ninguém de público nunca declarou; então vai aí nossa curiosidade: A Rua Cabo Reis é a única da cidade que vai do mar a lagoa. Ela é estreita, de casas simples, mas já sem cadeiras nas calçadas, devido ter se transformado num corredor de transporte. É uma paisagem de uma Maceió rasteira, sofrida, e que humildemente se prostra aos pés da beleza lacunar. Beleza e brejeirice são um binômio que encerra algumas partes dessa nossa cidade e de nossa gente. Contudo, o fato é interessante porque essa rua é o elo entre as águas salobras de Oxumaré, e as águas salgadas de Iemanjá. Resta-nos então, dar boas vindas aos transeuntes. E para os guias turísticos, vai aqui mais uma curiosidade de sobra.

cronicjf@gmail.com


 

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