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Economista formado pela Universidade Federal de Alagoas (UFAL). Pós graduando em Gerenciamento de Projetos pela Faculdade Maurício de Nassau. Consultor de gestão de negócios e planejamento financeiro pessoal. Instrutor de cursos de matemática financeira e análise de investimento. Dúvidas, comentários ou sugestões de temas, enviar e-mail para: romulobs@yahoo.com.br

O FGTS não é seu!

28/08/2013 08:28

 

Fui questionado hoje pela manhã por um funcionário de uma empresa prestadora de serviços de limpeza sobre o que fazer com o dinheiro do FGTS. A situação é a seguinte: ele está pensando em fazer um acordo para ser demitido da empresa em que trabalha, devolver a multa e assim poder ter acesso ao FGTS. Passaria seis meses trabalhando para a mesma empresa, porém sem carteira assinada, receberia o salário normalmente e, obviamente, o seguro desemprego.
Os três mil reais que ele estima receber do FGTS seriam utilizados para comprar uma motoneta, pois ele acredita que conseguiria sair do trabalho e chegar mais cedo na lagoa e, como pescador, aumentar as possibilidades de ganhos extras.

Deixei bem claro para ele que a operação toda faz sentido, qual seja, ganhar dinheiro, se não fosse totalmente ilegal e irregular. Mas, como o objetivo principal de toda essa manobra era saber se era viável utilizar o FGTS ou solicitar um empréstimo bancário para comprar a motoneta, meu conselho para essa dúvida em particular foi o seguinte: financeiramente, e só financeiramente falando, o empréstimo bancário com certeza sairia muito mais caro do que utilizar o dinheiro do FGTS que rende em média 3% a.a., enquanto que o banco cobra, dependendo do nível de relacionamento que o cliente tiver com a instituição, em média 5% a.m., ou 79,59% a.a.

Ele alegou que prefere usar um dinheiro que é dele por direito, o FGTS, a ter que pagar por um dinheiro que não é dele, no caso, o dinheiro do banco. Disse para ele que nenhum dos dois dinheiros é dele.

Tal qual esse rapaz, hoje com 26 anos de idade, nós também achamos, equivocadamente, que o FGTS é um dinheiro nosso. Uma rápida consulta ao site http://www.fgts.gov.br/trabalhador/index.asp constatamos que “com o FGTS, o trabalhador tem a oportunidade de formar um patrimônio, que pode ser sacado em momentos especiais, como o da aquisição da casa própria ou da aposentadoria e em situações de dificuldades, que podem ocorrer com a demissão sem justa causa ou em caso de algumas doenças graves.”

Continuei meu conselho: então, esse recurso não é seu. O dinheiro do FGTS é do senhor de 70 anos que você será daqui a 44 anos, quando possivelmente você irá se aposentar! Mais uma vez, o dinheiro não é seu. Utilizar esse recurso agora, irá fazer falta para “o senhor” lá na frente.

O que fazer, nessas condições então, para comprar a motoneta e não usar o FGTS? Minha resposta: solicitar um empréstimo bancário. Razão para isso é que o alto custo com juros que será pago ao banco, é o preço que você terá que pagar para garantir o futuro do senhor, deixar intacto um dinheiro que não é seu, e acima de tudo, não entrar nesse embrolho que você está arquitetando.

Utilizar o dinheiro do FGTS para a compra de uma motoneta, é colocar dinheiro bom, que rende juros, mesmo sendo pouco, sobre um patrimônio que deprecia, que vai gerar despesas com manutenção, seguro etc. Já que a aquisição da motoneta vai garantir aumentos extra na renda mensal, porque não pegar o dinheiro emprestado com o banco e pagar o empréstimo com retorno do próprio investimento, da própria renda extra?

No final das contas, a mensagem que estou tentando passar é que, o custo da utilização do seu FGTS, para essa finalidade, poderá sair muito mais caro lá na frente, do que o custo do dinheiro cobrado pelo banco. Sem falar que, lá na frente, esse custo será intensificado pois a pessoa que pagará por ele (você com 70 anos de idade), estará muito mais frágil fisicamente, com muito menos disposição para trabalhar e necessitando muito mais de conforto do que você agora com 26 anos.
 

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9% a.a.! Muita calma nessa hora.

29/08/2013 17:01

O Comitê de Política Monetária (COPOM) decidiu elevar a taxa de juros básica da economia (Selic) em 0,5 pontos percentuais, passando de 8,5% a.a. para 9% a.a.

A seguir apenas um exemplo prático de como a economia real reage à elevação na taxa de juros e o que o governo espera alcançar com tal medida.

Em outubro de 2012 a taxa de juros da economia estava em 7,25% a.a, a menor taxa de juros da economia brasileira. Permaneceu nesse patamar até março de 2013, quando começou a sofrer aumentos, chegando em julho de 2013 a 8,5% a.a. Ver gráfico.

Nesse mesmo período, a taxa média de juros para pessoa física na modalidade recursos livres (modalidade de empréstimo que não considera os créditos habitacional, rural e recursos do BNDES) cobrada pelos bancos acompanhou o movimento de alta da Selic, chegando a 39,80% a.a. em julho de 2013.

Fonte: Banco Central. Elaborado pelo autor.

Isso significa dizer que o consumidor deve ter muita calma nessa hora pois, quando os juros sobem, os bancos também irão cobrar mais caro para emprestar dinheiro, conforme evidenciado no gráfico ao lado. Consequentemente, um péssimo momento para contrair dívidas. O consumo deve ser feito então com mais cautela, amenizado e reduzido. Com a redução do consumo, o Banco Central espera que os preços dos produtos caiam e, com isso, a inflação fique sobre controle.

É essa a mensagem, de forma simplificada e resumida, que o Banco Central está querendo passar.

Importante: para que as ferramentas de controle da economia tenham sucesso, os mais de 200 milhões de habitantes devem se comportar conforme o esperado, caso contrário, é fazer política monetária para Papai Noel.

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Negociação bancária.

30/08/2013 11:55

Vejam a importância de se fazer as perguntas certas no momento certo. O texto a seguir é um relato verídico de um caso de negociação bancária que presenciei junto a um cliente meu. 

Gerente: Bom dia senhor, tudo certo? Bom, conseguimos o limite de R$ 4.500,00 para o senhor trabalhar com as suas antecipações. Aqui está o contrato para o senhor assinar.

Cliente: Bom dia. Que bom! Fico feliz. Ótima notícia. Olhe, vou assinar o contrato sem ler viu. Já tive problemas em assinar contratos sem ler, mas vou fazer isso de novo! Estou com pressa. Não vou conseguir ler as 6 páginas agora - comentou em tom irônico, mas feliz por ter conseguido o limite para antecipação.

Gerente: Mas o senhor pode dar uma passada de vista rápida sem problema nenhum.

Cliente: Daria no mesmo. Uma passada de vista rápida não é uma leitura atenciosa de contrato - retrucou enquanto rubricava e passava uma vista rápida nas folhas. Não estou vendo aqui o valor do limite das antecipações nem o valor da taxa de juros que será cobrada – pelo menos serviu para alguma coisa a passada de vista rápida!

Gerente: É, realmente não tem essa informação. É apenas um contrato de manutenção de domicílio bancário.

Cliente: E qual a taxa para essa antecipação de recebíveis?

Gerente: Mais ou menos 3% a.m.

Cliente: Como assim ‘mais ou menos’? Espero que seja menos 3% a.m – disse ele em tom de brincadeira enquanto anotava essa informação nas cópias do contrato que assinou, que, diga-se de passagem, só conseguiu porque a solicitou.

Cliente: Mas essa taxa está muito alta!

Gerente: Pois é, infelizmente foi o que consegui. Para eu poder barganhar com meu superior uma taxa melhor para o senhor eu preciso ter argumentos. Estive analisando a sua conta e vi que o senhor precisa ter um melhor relacionamento financeiro com a gente.

Cliente: Então você está me dizendo que eu preciso adquirir um produto financeiro para conseguir uma taxa melhor? Perguntou em tom irônico.

Gerente: Não exatamente, mas o senhor entende, não é?

Cliente: Claro. Mas acho que você não analisou direito a minha conta para dizer que eu não tenho um bom relacionamento financeiro com vocês. Veja aí no meu cadastro desde quando sou cliente.

Pausa para consultar o sistema.

Gerente: Desde 1998.

Cliente: Olha aí... Quinze anos de conta nesse banco.

Gerente: Mas sua conta é só para recebimento de salário!

Cliente: Então veja aí, por favor, nessa minha conta que é só para recebimento de salário, quanto já paguei durante esses 15 longos anos de taxa de manutenção de ‘conta salário’. Quantos empréstimos eu já peguei com vocês durante esses longos 15 anos de ‘conta salário’. Já financiei com vocês, carro, moto, já adquiri um seguro residencial, já utilizei por vários anos o limite do meu cheque especial. Consulte aí, por favor, quanto de juros eu já paguei no cheque especial. Eu tinha minha vida financeira toda desmantelada, toda bagunçada, devia a Deus e ao mundo. Paguei exorbitantes taxas de juros do cheque especial, uma verdadeira bola de neve de juros. Não lembro quantas vezes peguei empréstimo sobre empréstimo para pagar fatura de meu cartão de crédito. Como você tem coragem de me dizer que não tenho um bom relacionamento financeiro com o banco? Claro que tenho! São 15 anos de estreito relacionamento financeiro. Só financeiro. Meu relacionamento com o banco, felizmente ou infelizmente, só é financeiro.

Gerente: É, sei disso.

Cliente: Sabe não. Se soubesse teria brigado por uma taxa melhor com o seu superior. Taxa melhor para mim, é claro, o que significa, uma taxa mais baixa. Acho que você não analisou minha conta, nem meu histórico bancário direito.

Gerente: Mas o senhor está contratando um novo serviço e não tem ainda um histórico para esse serviço. O senhor poderia adquirir um título de capitalização.

Cliente: Veja bem, eu sei que você tem meta para atingir com venda de produtos financeiros que são bons para vocês. Não me ofereça esses produtos que prometem prêmios. Ofereça-me coisa boa.

Gerente: Mas teve uma cliente nossa da agência do Farol que foi premiada.

Cliente: Que bom para ela. Sortuda! Mas enquanto minha sorte não chega....

Gerente: Previdência privada, o que o senhor acha?

Cliente: Qual a taxa de administração que vocês cobram?

Gerente: O senhor pode falar agora com o pessoal da previdência privada, quer ir lá agora?

Cliente: Acho que você deveria me oferecer, como disse antes, coisa boa. Sabemos que previdência privada são fundos lastreados em letras do Tesouro Nacional. Eu posso comprar esses mesmos títulos direto do Tesouro Nacional sem precisar pagar altas taxas de administração para os fundos da previdência privada. Faça o seguinte, você analisa com seu superior uma boa opção para o investimento de R$ 50.000,00. Dependendo do que você me propor, eu trago o dinheiro para cá e aplico no que você me sugerir.

Daí em diante foi só apertos de mão, muito obrigado e até a próxima.

Bom, tirem suas próprias conclusões.

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VOCÊ vale 5,56% a menos.

04/09/2013 14:56

As pessoas estão sempre preocupadas em não perder dinheiro, em saber como proteger os seus ativos para que eles não se desvalorizem diante de cenários de instabilidade e/ou crises econômicas. Tenho sido questionado, até com certa frequência, como os atuais acontecimentos econômicos, aumento da Selic, inflação em alta, desvalorização do Real perante a moeda americana, conflito no Oriente Médio etc., podem afetar esses investimentos.


Resolvi então escrever sobre essas dúvidas, porém com uma proposta de análise um pouco diferente. Tentarei demonstrar aqui como esses últimos acontecimentos na economia brasileira e no exterior, podem afetar diretamente o ativo financeiro mais importante de todos: VOCÊ.

Às vezes esquecemos, mas VOCÊ, enquanto pessoa física, é um ativo financeiro que, mensalmente gera uma renda, seu salário, que pode ser fixo ou variável. Então, tal qual qualquer outro ativo que existe no mercado, você também precisa entender o que acontece com o seu valor no mercado e com a sua renda mediante cenários de instabilidade e/ou crises econômicas.

Para que a leitura não fique muito cansativa, abordarei um tema de cada vez. Esse primeiro post será dedicado à Selic.

Quais os efeitos, digamos, invisíveis da Selic no nosso dia-a-dia? Se não quiser se decepcionar, aconselho a não continuar a leitura.

Selic: taxa referencial de juros da economia. Atualmente em 9% a.a. Especula-se que pode chegar a 10% a.a.

Existem basicamente dois tipos de ativos: os que prometem pagar uma renda fixa, e os que prometem pagar uma renda variável.
VOCÊ, que tem um salário fixo, é um ativo com promessa de receber como fruto do seu trabalho, todo mês, uma renda fixa.
Digamos que VOCÊ seja um funcionário e esteja ganhando um salário fixo mensal de R$ 1.000,00.
Se o juro básico da economia (Selic), fosse 10%, VOCÊ seria um ativo que estaria valendo no mercado R$ 10.000,00: 10% de R$ 10.000,00 = ao seu salário fixo de R$ 1.000,00.
Agora, num segundo momento, se o juro básico da economia (Selic) aumentasse para 20%, VOCÊ passaria a ser um ativo que vale agora no mercado apenas R$ 5.000,00: 20% de R$ 5.000,00 = ao seu salário fixo de R$ 1.000,00. Colocando de outra maneira, para render os mesmos R$ 1.000,00, tendo como base o juro da economia em 20%, VOCÊ teria que se desvalorizar 50% do seu valor inicial!

SEU VALOR   |  SELIC  |   RENDIMENTO
R$ 10.000,00    x 10% = R$ 1.000,00 (fixo)
R$ 5.000,00      x 20% = R$ 1.000,00 (fixo)

Então, toda vez que a Selic aumenta, quem tem renda fixa, tem seu ativo desvalorizado. Nesse nosso exemplo, VOCÊ se desvaloriza.
E o que acontece com quem tem salário variável? Até para quem se enquadra nessa opção, quem depende de comissão, por exemplo, vai ter uma perda representada por mais esforço físico, mais suor no rosto para poder conseguir repor essa desvalorização trabalhando mais.

Mais exemplos considerando a Selic atual de 9% a.a. e a projeção de 10% a.a.

Você tem um carro e vive de aluguel desse automóvel. Suponhamos que você cobra R$ 150,00 pela diária.
Renda       |  SELIC |   VALOR DO SEU CARRO
R$ 150,00     9%         R$ 1.666,67 (1.666,67 x 9% = 150)
R$ 150,00   10%         R$ 1.500,00 (1.500 x 10% = 150)
A Selic, nesse nosso exemplo, subiu 1 ponto percentual, e o seu carro se desvalorizou 10%!

O que fazer para compensar essa desvalorização? Aumentar o valor da diária para R$ 166,67 (1.666,67 x 10%).

O valor da mensalidade que você paga pelo seu plano de saúde é R$ 250,00:
Mensalidade   |  SELIC |   VALOR DO SEU PLANO
R$ 250,00            9%          R$ 2.777,78 (2.777,78 x 9% = 250)
R$ 250,00          10%          R$ 2.500,00 (2.500 x 10% = 250)

O que fazer para compensar essa desvalorização do plano? Conseguir uma redução no valor da parcela para R$ 225,00 (2.500 x 9%)

Você tem um imóvel que está alugado por R$ 800,00:
Aluguel        |   SELIC    |   VALOR DO SEU IMÓVEL
R$ 800,00         9%           R$ 8.888,89 (8.888,89 x 9% = 800)
R$ 800,00         10%         R$ 8.000,00 (8.000 x 10% = 800)

O que fazer para compensar a desvalorização do seu imóvel? Subir o aluguel que você cobra para R$ 888,88.

Com o dinheiro não é diferente:

Cédula        |  SELIC  |   VALOR DO DINHEIRO
R$ 50,00           9%         R$ 555,56 (555,56 x 9% = 50)
R$ 50,00         10%         R$ 500,00 (500 x 10% = 50)

O que fazer para conseguir compensar essa desvalorização? Aqui cabe uma pequena explicação. Diferentemente dos exemplos anteriores, o dinheiro é apenas um papel impresso. Não existe nada por trás dele que dê valor a ele, que dê suporte ao valor que está impresso nele. Digo isso porque a emissão de papel moeda era lastreado em ouro. Sabemos que o padrão ouro não existe mais desde a década de 70. Então, o que dá suporte ao dinheiro impresso? Para nossa surpresa, apenas duas assinaturas: a do Ministro da Fazenda e a do Presidente do Banco Central do Brasil. Dinheiro é confiança. Aceitamos um papel impresso com “R$ 50 reais” porque confiamos que o governo, representado nas cédulas pelo Ministro da Fazenda e pelo Presidente do Banco Central do Brasil, garantem que esse papel vale o que está impresso nele.
Voltando à nossa pergunta, o que podemos fazer para compensar a desvalorização do dinheiro? Nós, pessoas físicas, procurar aplicações financeira que acompanhem o movimento de alta da Selic. Os bancos, por sua vez, aumentam a taxa de juros dos empréstimos, como vimos no post anterior, para compensar essa desvalorização.

Como adiantei no título do post, VOCÊ se desvalorizou quando a Selic passou semana passada de 8,5% a.a para 9% a.a. Isso mesmo, VOCÊ está d-e-s-v-a-l-o-r-i-z-a-d-o. Mais precisamente, VOCÊ se desvalorizou 5,56%.
Se é que serve de consolo, todos nós estamos 5,56% mais desvalorizados.
Vou ser até profético: Em verdade, em verdade vos digo, tudo sem exceção perde valor quando a taxa de juros básica da economia sobe. Porém, o inverso também é verdadeiro. Quando ela sofre reduções, tudo se valoriza!

Éramos felizes, digo, valorizados, e não sabíamos! 

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Ilusão monetária: você paga para ver.

17/11/2013 19:39

A economia também faz suas mágicas, suas ilusões. Tenho certeza, você também foi iludido pela inflação.

A inflação é a elevação dos produtos e dos fatores de produção. A inflação causa desvalorização da moeda e, consequentemente, perda do poder de compra. Setores da economia que são monopolizados conseguem impor reajustes nos preços para compensar essa desvalorização. Por outro lado, setores mais fracos não conseguem, como por exemplo, os trabalhadores que não conseguem reajustar os salários acima da inflação. Em suma, há sempre um conflito de distribuição de renda entre os agentes com menor e maior poder de negociação.
A inflação se desenvolve basicamente de duas maneiras. Quando a demanda de produtos excede a quantidade ofertada, temos uma inflação de demanda. Se formos à feira comprar 10 tomates e só tiver 5 tomates disponíveis para a venda, poderia haver um aumento do preço do tomate. A inflação funciona, nesse caso, para ajustar demanda e oferta. Há também a inflação de oferta, que seria causada por um aumento nos fatores que afetam direta ou indiretamente a oferta do tomate, por exemplo, aumento nos custos de produção, fatores climáticos, aumento no preço do combustível, más condições das rodovias etc.
Porém, para consideramos que estamos vivendo um processo inflacionário é necessário que o aumento do preço seja consistente e persistente.

Não vou discutir aqui os efeitos da inflação no nosso dia-a-dia, pois já é sabido por todos. Porém gostaria de chamar a atenção para um efeito causado pela inflação que acaba, como um passe de mágica, passando despercebido: ilusão monetária. A ilusão monetária acontece quando esquecemos de considerar o efeito da inflação sobre a nossa renda e sobre nosso orçamento doméstico.
Vejamos apenas um exemplo: vamos supor um trabalhador que recebe um salário líquido de R$ 600,00. Com essa renda ele consegue pagar todas as despesas domésticas, lazer, estudos, plano de saúde etc. e ainda lhe sobra R$ 100,00 para colocar na poupança. Esse nosso trabalhador resolve agora no final de ano comprar um celular com Android para ficar na moda e conversar no whatsapp com seus amigos. Faz as contas e decide passar a depositar apenas R$ 40,00 na poupança e parcelar o tão desejado aparelho em 12 pequenas e inofensivas parcelas de R$ 59,90.
Fazendo assim tudo fica dentro da normalidade e sob controle, certo? Errado!
Ao longo dos 12 meses de pagamento do parcelamento, todos os itens de despesas do orçamento familiar - combustível, transporte público, água, luz, aluguel, IPTU, IPVA, matrícula e material escolar etc. - irão sofrer aumentos devido à inflação, exceto a prestação mensal do celular que acabara de adquirir que é fixa. Isso implica que, cada vez será necessário direcionar mais dinheiro para honrar com as despesas do orçamento doméstico, faltando assim dinheiro para pagar as prestações do celular. Temos ai a famigerada ilusão monetária que infelizmente você teve que pagar para ver.
Daí surge o dilema: honrar com as despesas de necessidades básicas e deixar atrasar a prestação fixa do parcelamento, ou continuar honrando com o pagamento do parcelamento e deixar faltar as necessidades básicas para dentro de casa? O dilema será, com toda certeza, resolvido com:

a) Desviar cada vez mais dinheiro da poupança para cobrir as despesas do orçamento doméstico;

b) Mais esforço financeiro com pagamento de juros de um novo empréstimo;

c) Mais esforço físico na tentativa de aumentar a renda através de ‘bicos’;

d) Menor conforto físico devido a redução do padrão de vida, para que sobre mais dinheiro;

e) A combinação de todas as alternativas anteriores.

O que fazer então para escapar da ilusão monetária? Infelizmente, não muito. O fato de ter consciência que ela existe já ajuda. Como a inflação potencializa negativamente o peso da taxa de juros sobre os empréstimos, financiamentos, parcelamentos etc, devemos nos esforçar para fazer compras parceladas só se for realmente e extremamente necessário.

Dar sempre preferência para juntar o dinheiro das parcelas para comprar à vista e com desconto já resolve grande parte do problema.

seta

Primeira Edição © 2011