Primeira Edição [atalho H]
30/12/2011 - 14:59

O Réveillon de Mané Pina

Há uma palavra uníssona na boca do povo quando chega o fim do ano: é a tal da esperança. Cada um vai traçando a vida como pode, e quem não pode se sacode, por que, esperança de pobre é bola nos peito e tocar pra frente. Pois andar atrás do prejuízo não é boa estratégia. Mané Pina, por exemplo, andou pensando nessas coisas por esses dias, e, vendo que a vida de pobre é mesmo madeira, não deixa de ver cada dia as manchetes apocalípticas da vida severina. Se deu fé do caso das casas dos retirantes da cheia, e comentava que se o governo federal não der aquelas casas de graça é uma grande sacanagem com aquela população sofrida. Muito embora, despreocupado com seu semelhante, como sempre foi, o caso das casas nas mãos da Caixa é um perigo, pois nesses tempos de hoje nada é mais de graça, nem mesmo injeção na testa. Se as casas ficarem de graça não é nenhum favor, é obrigação do governo, que bateu todos os recordes de arrecadação de impostos este ano, e fez o país passar a ser a 6º economia do mundo. Tem muito dinheiro pra derramar em benefício do povo. O ruim é o sistema dessa economia, em que os ricos ficam mais ricos, e os pobres só aumentam. Mas, aí já é mais quinhentos, e o pior é que ninguém vai melhorar essa situação, por que o problema é mundial e insolúvel; conformemo-nos.

Mané Pina, por outra, pensara que sua sorte fora não gastar tudo que ganhava; e realmente foi. Sobreviveu a algumas dificuldades, e sempre sobrava um troco para uma emergência qualquer. Cogitava não ser fácil o sujeito perder tudo e ficar com o bolso vulnerável a qualquer bobagem. Lembrara mais uma vez do pessoal da cheia que aguarda suas casinhas, e agradeceu a Deus morar perto de um mar tranquilo que não lhe causa esses percalços das cheias, e nem lhe ameaça com tsunamis. Ficou feliz com essas suas deduções, e mais ainda por que depois de pagar a última parcela de seu consórcio, em longos cinco anos, finalmente tirou seu carro zerinho para romper o 2012 de carro novo. Mané Pina está entre os que colocarão mais um carro novo nas ruas, dando sua contribuição para o caos do trânsito. Mas, seu carro é flex, e assim sendo, contribuirá com o meio ambiente. No que pese ele não ter essa preocupação, porque não tem em si essa visão global.

Sendo um indivíduo seguro, o chamado mão de onça, ao passar por um anúncio de um réveillon privado, lhe deu até arrepio com o preço do individual. Disse que não iria nem pro de graça, para preservar seu carro das ruas e dos vândalos. Resolveu, antes, dar um passeio no shooping; lá, o estacionamento é mais seguro, porém, também paga-se três reais por cada entrada, e não tem nem coberta de sol. É uma exploração e uma falta de respeito com os donos dos veículos. Mesmo assim ele fora, e chegando na cancela de entrada do estacionamento, ouviu a vóz eletrônica da moça que disse:

- Favor apertar o botão verde.

Mané Pina apertou, e quando a cancela abriu, a vóz da moça disse de novo:

- Vá em frente e boas compras.

Ora, para um pão duro que nem ele, isso fora uma afronta. Intimamente, ele dizia pra si mesmo:

- No momento, não estou comprando nada, só vendendo.

quando sua mulher desceu do carro, ele logo adiantou:

- Êpa! Nada de compras!

Seu coração, entretanto, murumurava:

- Vai lá proibir mulheres de gastar no shooping?! Tem jeito não, tem jeito não...

Por fim, Mané Pina que sempre gostou de passar o réveillon na beira do mar, esse ano seu pai de santo não pôde lhe acompnhar nas oferendas, e mandou o pai pequeno do terreiro com ele. Os dois entraram no mar com água até o pescoço. Mané Pina deu um tombo deixando cair pro fundo do mar as oferendas,  e quase se afogando foi arrastado para areia por uma braçada forte do pai pequeno que era um negão tipo gladiador.  Ali mesmo, botou toda água pra fora de suas entranhas. O pai pequeno então lhe falou:

-começou bem 2012, hein? antes da virada fostes salvo por Iemanjá. Agora, aproveite a atenção que o orixá lhe teve, agradeça, e entre de novo no mar, mesmo com essa maré mais alta.

E Mané Pina respondeu:

- Já agradeci, e ela até me adiantou que esse ano o orixá regente é Xangô. E disse mais, como Xangô  é a Justiça, ela ordenou que você agora é quem vai entrar no mar; e sozinho, visse?

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Redação

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