03/12/2011 - 00:12
Do Mar a Lagoa

A vida é feita de coisas singelas; cada vez mais me convenço disso. Nosso cotidiano é acalentado de pequenas centelhas que enlaçam uma sucessão de pequenos atos e eventos, os quais, nós chamamos de rotina. E quando esse trivial é quebrado por pequenos imprevistos, temos aquele despertar e aquela impressão de que apanhamos de saudade; de lembranças ou de surpresa. Não são masoquismos da alma essas pequenas tapas que as palavras nos trazem nas nossas relações do dia-a dia. Talvez seja o lado lúdico da vida; de como cada dia se apresenta com sua própria verdade, lucidez ou loucura. É lúcido e real está no contexto de uma sociedade, dando sua contribuição para continuidade e progresso de qualquer coisa, por mais simples que seja. Da mesma forma, terminar o dia com o sentimento do dever cumprido, ou então, de que nada fez. Enfim, tudo isso está dentro de uma visão existencial pragmática e realista. Por outro lado, é uma santa loucura contemplar o mar e seu ocaso; e logo mais a noite o céu estrelado; e ainda, enxergar a beleza das pedras e dos animais, e perguntar a si mesmo: qual é a minha odisséia neste reino da criação? É um feliz tormento viajar nestas elucubrações oníricas; posto que seja incerteza, é feliz porque é poesia. Aliás, a poesia tudo salva, tudo releva e tudo explica.
E aí o dia vai seguindo entre um cafezinho e um bate papo pra relaxar; algum aperto de mão para se brindar a existência; um toque de sedução no olhar e num sorriso de mulher; um tempero diferente na comida; a notícia de que o menino vai mal na escola (porque quando vai bem ninguém diz nada); aquela olhadinha fundamental no jornal; e até aquele boleto bancário pra pagar. E muito mais! Muito mais! Neste coquetel de pequenos fatos, somos brindados e tragados hodiernamente pelo tempo rei, senhor de todas as coisas.
Hoje por exemplo, em direção ao Pontal da Barra, enquanto trafegava pela Rua Cabo Reis, ocorreu-me ver um grupo de meninos tomando raspadinha. Lembrei-me dos tempos de estudante em que havia um vendedor de raspadinha na porta do colégio. Naquele tempo agente apreciava muito o sabor maçã com coco, era uma mistura de gosto estrangeira com o sabor da terra. Atualmente, vejo que o distinto vendedor que servia o apreciável néctar a meninada tinha traços caboclos, parecia aposentado e demonstrava ser altivo e sorridente. Demonstrava uma extrema vocação para o comércio, e enquanto atendia a turma, tagarelava conversando como se estivesse realizando um grande negócio. Naquele intervalo de tempo, na rua, entre pessoas e veículos que passavam, foi o suficiente para que eu viesse a perceber um fato interessante. Eu não diria que foi uma descoberta porque eu já tinha ouvido isso do historiador Bernardino Miranda em certa oportunidade. Também com certeza o Vicente sabia; aliás, este velho e memorável topógrafo da Prefeitura, nosso gentil Vicente, conhecia cada pedaço de chão pertencente ao patrimônio público; era um verdadeiro arquivo ambulante da municipalidade. Na verdade, não é nenhum segredo, mas também ninguém de público nunca declarou; então vai aí nossa curiosidade: A Rua Cabo Reis é a única da cidade que vai do mar a lagoa. Ela é estreita, de casas simples, mas já sem cadeiras nas calçadas, devido ter se transformado num corredor de transporte. É uma paisagem de uma Maceió rasteira, sofrida, e que humildemente se prostra aos pés da beleza lacunar. Beleza e brejeirice são um binômio que encerra algumas partes dessa nossa cidade e de nossa gente. Contudo, o fato é interessante porque essa rua é o elo entre as águas salobras de Oxumaré, e as águas salgadas de Iemanjá. Resta-nos então, dar boas vindas aos transeuntes. E para os guias turísticos, vai aqui mais uma curiosidade de sobra.
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Redação