Psicologia, torcida, imprensa... Como será o "novo normal" no esporte?

20/05/2020 15:48

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EFE

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Em apenas três meses, o modo de vida de pessoas de todo o mundo mudou radicalmente, e muitas adaptações precisaram ser feitas no dia a dia para enfrentar a pandemia do novo coronavírus. O mundo do esporte, que não escapou das mudanças, vem debatendo os melhores rumos a serem tomados para o retorno dos atletas a treinos e competições.

O choque psicológico que os atletas poderão sofrer na volta ao trabalho após várias semanas em confinamento é um dos possíveis obstáculos desse "novo normal".

Sujeitos a certos hábitos, os atletas devem reforçar o preparo mental para retomar a antiga rotina, ou a mais perto possível do que ela era, segundo o psicólogo esportivo espanhol Oriol Mercadé, doutor em Ciências do Esporte e Saúde pela Universidade Ramon Llull (Barcelona).

Mercadé analisou para a Agência Efe quais são os principais desafios que os profissionais terão que enfrentar em seus primeiros treinamentos e competições e quando o público retornar às sedes esportivas. Na prática, eles terão que combater uma espécie de 'jet lag'.

"Será difícil colocar o corpo e a mente em foco de novo. É muito diferente fazer um treinamento todos os dias do que assistir Netflix e e conversar pelo Whatsapp. É muito custoso. Eles vão achar difícil focar no que o treinador está dizendo ou na ação. O cérebro se acostumou a vaguear sem nenhum tipo de foco", disse.

Para o especialista, preparar psicologicamente os atletas antes de retomarem as atividades poderia ser muito útil. Fazer "visualizações" ou "controle do pensamento" após uma quebra completa da rotina os ajudaria a voltar ao trabalho de uma só vez.

Atualmente, os atletas com quem Mercadé trabalha entram nessa fase de visualização. Ou seja, eles trabalham mentalmente as ações que vão realizar para que seus cérebros completem as conexões neurais quando fazem um movimento.

"Eles já pensam em entrar na academia ou em chutar uma bola. Durante este mês, eu os treinei para fazer um trabalho mental de imaginação, e agora estamos em execução. Eles têm que fechar os olhos como se fosse quase uma hipnose, fazer a prática guiada. Quando fazem isso, o corpo é como se tivesse sido treinado, e será mais fácil recuperar as sensações do que os 98% dos atletas que pulam na piscina sem ter feito esse processo anterior", analisou.

Mas o impacto será o mesmo para todos os tipos de esporte? De acordo com o psicólogo, a resposta é "não". Uma das razões é a ausência de público, que tem muita influência em alguns esportes, como o futebol, que viverá um cenário de partidas com portões fechados.

"A nível mental, uma casa cheia ou estádio para um jogador de futebol pode ter 30% do impacto no seu nível de ativação. Por outro lado, para um ciclista, menos pessoas na estrada pode não ser tão relevante", disse Mercadé.

 

NOVA ERA NA RELAÇÃO ENTRE ATLETAS E TORCEDORES.

 

Sem dúvida, a ausência desses torcedores, que pode ser um choque para os atletas, também terá uma grande influência no novo relacionamento com eles. O contato será mínimo, quase inexistente. Muitas situações antes normais, como dar autógrafos, ser recebido ao sair do ônibus na ida para o estádio ou simplesmente comemorar os gols com o público não acontecerão por um bom tempo.

Em primeiro lugar, por causa do protocolo. Em segundo, porque entre os próprios atletas pode haver algum tipo de barreira psicológica que os impeça. Em relação ao primeiro aspecto, o presidente da Associação Espanhola de Médicos de Futebol (AEMEF), Rafael Ramos, disse que os contatos, até o retorno à normalidade, dificilmente vão acontecer.

"Hoje em dia, essas situações são impensáveis. Sempre disse que, se voltarmos a uma competição, será diferente. Se você me perguntar como será dentro de quatro ou cinco meses, na próxima temporada do Campeonato Espanhol, digo que dependerá muito da situação epidemiológica que tivermos nos países", declarou à Efe.

Tampouco será possível ver imagens como as da festa dos torcedores do Valencia para receber a equipe antes do jogo contra a Atalanta, no dia 10 de março, pelas oitavas de final da Liga dos Campeões. Mesmo à beira do estado de alarme na Espanha, em partida com portões fechados, centenas de pessoas se reuniram ao redor do estádio Mestalla para saudar o ônibus com os jogadores e a comissão técnica.

"O acesso vai ser totalmente controlado. Essas imagens, esse formato que tínhamos do futebol há dois meses, não voltará. Pelo menos não agora. E o campeonato que está por vir, receio que se as coisas não mudarem muito, vamos ter que esquecer isso", disse Ramos.

Mercadé também traça uma linha psicológica em relação ao público que é difícil para os profissionais compreenderem. Para ele, veremos uma nova forma de relacionamento entre atletas e torcedores.

"O tempero do esporte de elite é essa mistura com o povo. Isso lhes dá vida. No início, eles (atletas) terão que processar (o "novo normal"). Talvez isso de bater as mãos (nas de um companheiro de time ou um torcedor) e se deixar levar pela euforia seja muito difícil. Haverá momentos em que vão querer compartilhar alegria com as pessoas, mas terão que pensar: 'cuidado, não'. Vamos ver uma maneira de comemorar os gols com as pessoas. Do público para os jogadores e dos jogadores para o público. Será muito difícil ver um gol e um jogador correr para os torcedores em seguida", acrescentou.

Para Juan José Pérez Toledano, médico do Estudiantes - time de basquete espanhol - e presidente da Associação Espanhola de Médicos de Basquete (AEMB), a relação entre o público e os profissionais é uma questão complicada de ser respondida agora.

"A princípio, (os jogos serão disputados) com portões fechados. Por quanto tempo? Vamos ver de acordo com a evolução da pandemia. O problema não vai acabar até que haja uma vacina eficaz. Um estádio de 80 mil pessoas pode ser uma 'bomba biológica' se não for bem controlado", alertou.

 

MAIS CUIDADO EM LOCAIS FECHADOS.

 

Ramos e Pérez Toledano defendem que o trabalho de limpeza e desinfecção seja rigoroso em locais de treinos e competições.

"Absolutamente qualquer percurso que um atleta ou a comissão técnica tiver que fazer terá que ser esterilizado. Qualquer um desses locais deverão cumprir as normas de segurança para desinfecção", frisou Ramos.

 

ENTREVISTAS COLETIVAS POR VIDEOCONFERÊNCIA.

 

A imprensa, que tem um papel importante no relacionamento com os atletas, será menos presente, ao menos fisicamente, de acordo com os especialistas, pelo menos nas competições a serem concluídas. O contato com os jogadores deve ser evitado e, embora ainda não exista uma regra específica, é possível que as entrevistas coletivas sejam realizadas por videoconferência.

"O contato será mínimo. Ainda não se pensou nisso. Mas, além disso, acho que não serão autorizadas tantas credenciais quanto antes. Você não verá mais 80 credenciamentos em uma única partida. Será limitado. Todos nós temos muito em jogo, e quanto mais controlada for a situação, melhor", opinou Ramos.

 

VÁRIOS TESTES DE CONTROLE.

 

Antes de tudo, é preciso dar um primeiro passo: atletas, treinadores ou outros funcionários de clubes devem se submeter a testes para que se descubra se estão ou não infectados pelo coronavírus.

"Será necessário repeti-los de tempos em tempos. Todos os dias, o atleta deve avaliar seu próprio estado de saúde. A ideia é que todos os dias o atleta ou a pessoa que vai às instalações tenha a temperatura medida antes dos treinamentos", explicou Toledano.

As autoridades precisarão tomar muito cuidado para garantir que os jogadores cheguem "limpos" aos primeiros treinos. Por mais que mantenham o risco em mente fora das competições, em algum momento, os atletas o esquecerão.

"Esporte é repetição e automatismo. Quando um jogador corre, ele muitas vezes não pensa racionalmente. Noventa por cento das ações são repetições automáticas. Isso os torna bons. Se um jogador faz coisas sem pensar, ele não vai pensar na distância social. Ele vai abraçar, tocar... Acho que vai ser quase impossível seguir isso. Pode haver controvérsia, porque serão chamados de irresponsáveis, e quando se virem na TV, vão se perguntar por que o fizeram. A resposta é que eles sequer pensaram sobre isso", argumentou Mercadé.

Esse é um último exemplo de como o mundo do esporte vai lidar com o mundo pós-pandemia. Há muitas mudanças que precisarão ser enfrentadas. Psicologia, limpeza, locais, segurança e até mesmo relacionamentos pessoais serão todos adaptados aos novos tempos.

Voltar à normalidade antes da crise gerada pelo coronavírus vai exigir um período de transição em que muitos costumes terão que ser repensados, e outros, criados.

Primeira Edição © 2011