Alfabetização aos 54 anos: o exemplo de Maria Betânia

14/12/2018 15:45

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Ascom Projeto Semed PNUD

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Nascida no município de Viçosa, interior de Alagoas, a 86 quilômetros da capital Maceió, Maria Betânia sempre teve uma vida difícil. Na década de 1970, ainda criança, faltou-lhe a oportunidade de estudar. Enquanto a mãe trabalhava na roça, a menina precisava ficar em casa cuidando dos irmãos mais novos. O primeiro contato dela com a escola se deu somente aos 12 anos, mas durou pouco. Ela bem que tentou: frequentou regularmente as aulas durante um mês, mas a professora não. Sem aprender nada, desistiu.

Assim, a menina que foi sozinha à escola para fazer a própria matrícula teve que adiar o sonho de se alfabetizar. Filha de uma lavradora e de um vaqueiro, Maria Betânia, hoje com 54 anos, é mãe de Maria Simone, de 32 anos,  sua única filha.

Em abril deste ano, enquanto trabalhava, assistiu uma reportagem sobre uma senhora de 75 anos que voltou a estudar. Era o estímulo que faltava para o início da mudança de vida. Naquele mesmo instante, procurou a escola mais próxima para se matricular, sem êxito. Não satisfeita, dirigiu-se à Escola Municipal Professor Antídio Vieira, no bairro do Trapiche, que prontamente a acolheu. No dia seguinte, após mais de 40 anos afastada da sala de aula, Betânia voltou a estudar ou, como ela costuma dizer, “começou do zero”.

“Acordo muito cedo e trabalho o dia inteiro, mas à noite eu não tenho preguiça de estudar. Aqui somos bem recebidos, a comida é boa. Temos também uma professora maravilhosa que nos motiva a todo momento, nos incentiva a seguir em frente. Eu não vou desistir nunca mais. Meu maior sonho é conseguir ler a bíblia sozinha e trabalhar no meu próprio negócio, e eu vou conseguir”, revela a estudante que, orgulhosa, faz questão de dizer que já aprendeu a escrever e soletrar seu nome.

Motivada pelo sonho de menina e com o apoio incondicional de pessoas próximas, Betânia hoje é um dos 7.305 estudantes matriculados em uma das 53 escolas da Rede Municipal de Ensino de Maceió, que oferece a Educação de Jovens, Adultos e Idosos (EJAI). Ela, que há 16 anos trabalha como empregada doméstica durante o dia, troca o fogão e as panelas por lápis e cadernos à noite. Seu maior sonho permanece: aprender a ler e escrever, assim como os colegas de turma do primeiro ciclo da EJAI da Antídio Vieira.

Escrever um e-mail, ler um jornal ou mesmo pegar o ônibus correto pode ser algo comum para significativa parcela da população, mas para algumas pessoas pode representar uma grande conquista, um ganho de autonomia e de autoestima imensurável. Em Maceió, o número de idosos nessa modalidade de ensino tem crescido, de acordo com a Coordenadoria Geral de EJAI do Município. São pessoas como Maria Betânia que, em algum momento, teve adiado ou interrompido o sonho de concluir os estudos e hoje podem dar continuidade aos planos ou mesmo partir do início.

O papel do professor

Para a professora Ana Rubia Pinto, o segredo é estimulá-los cotidianamente, além de abraçar, com eles, seus sonhos. A docente diz que sempre busca dialogar com cada um deles para entender um pouco mais sobre suas vidas, seus sonhos e motivações. Além disso, ela se preocupa até mesmo em ligar para eles quando se atrasa, para que não voltem para casa.

“Minha esperança é contribuir para o que eles tanto querem neste primeiro segmento da EJAI: aprender a ler e escrever. Para isso, buscamos trazer para a sala de aula poesia, música e textos que reportem a realidade que eles vivem. Não basta ter conhecimento, o professor precisa ter paciência e amar o que faz”, avalia Ana Rubia, que já foi professora da Educação Infantil e há cinco anos atua com EJAI.

De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) 2016, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), existem 1,8 milhão de meninos e meninas fora da escola.

Determinação

Entusiasta do impacto que a educação pode ter em sua vida, Betânia sempre sorridente e garante que está focada nos estudos. Mais forte que as dificuldades que já passou é seu desejo de aprender. Com a ajuda da “Tia Rubia” , como ela e seus colegas carinhosamente costumam chamar a professora, o sonho de criança está cada vez mais próximo.

“Um vencedor não desiste nunca. Aquele que nasceu para vencer vai até o fim. Se eu não aprender, pelo menos tentei”, comenta a senhora que, em breve, poderá ler sozinha parte de sua história relatada nesta reportagem.

O PNUD em Maceió

Tendo em vista experiências como a de Maria Betânia, a Secretaria Municipal de Educação de Maceió (Semed) e o PNUD realizou, nesse 13 de dezembro, o encontro “Reflexões sobre Trabalho e Educação de Jovens, Adultos e Idosos”, no auditório Paulo Freire, na Cambona. A proposta foi debater as perspectivas para essa modalidade de ensino em Maceió, sobretudo no que se refere ao cenário educacional e mercado de trabalho. O encontro reuniu professores, gestores, coordenadores e estudantes da EJAI, e integra o plano de trabalho do projeto de cooperação técnica com a educação pública do município, iniciado em 2014.

Orientações Curriculares para a Educação de Jovens, Adultos e Idosos (EJAI)

Em 2017, o projeto Semed/PNUD lançou um guia que completa a série de instrumentos pedagógicos da coleção Viva Escola, que sintetiza a memória histórica da educação de jovens, adultos e idosos na rede e traz reflexões políticas e epistemológicas, além de ações educativas e de formação de professores, para o enfrentamento do analfabetismo e inserção desse perfil de aluno no cenário político, social, cultural e educacional.

Relatório Universalizar a Alfabetização em Maceió: Subsídios para a Política Pública

Com supervisão do PNUD, em parceria com a Semed,  o Centro Internacional de Políticas para o Crescimento Inclusivo (IPC-IG) desenvolveu pesquisa, em 2016, sobre o enfrentamento do analfabetismo na cidade de Maceió. O resultado foi o relatório “Universalizar a Alfabetização em Maceió: Subsídios para a Política Pública“.

Primeira Edição © 2011