Suposto massacre de índios isolados é investigado

12/09/2017 12:37

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Um suposto assassinato de índios que vivem isolados no Vale do Javari, no extremo oeste do Amazonas, está sendo investigado pelo Ministério Público Federal do Amazonas (MPF) e pela Polícia Federal (PF).

A suspeita é de que um grupo de garimpeiros ilegais tenha assassinado membros de uma tribo isolada no final de agosto.

A investigação, solicitada pela Funai (Fundação Nacional do Índio), foi instaurada após a denúncia de que garimpeiros foram vistos no município de São Paulo de Olivença (AM), que fica perto das terras indígenas, conversando sobre um suposto massacre. "Servidores da Funai fizeram o primeiro levantamento e entenderam ser necessário apresentar a denúncia", disse a Funai, em nota.

Dois garimpeiros foram detidos e conduzidos a Tabatinga, onde prestaram depoimento e foram liberados. Em nota divulgada nesta segunda-feira (11), o MPF afirma que foi instaurado um procedimento para apurar o caso e há diligências em curso, mas não dará detalhes para "não prejudicar a investigação". O órgão não confirmou o possível massacre, o número de mortes, nem o nome da tribo que teria sido atacada.

Em depoimento, os garimpeiros também não confirmaram as mortes e, até o momento, nenhuma prova foi encontrada. "Não é possível, portanto, confirmar a veracidade das mortes", informou a Funai.

Porém, segundo a ONG de proteção às tribos indígenas brasileiras, a inglesa Survival International, mais de dez índios teriam sido assassinados. Entre os mortos, inclusive, estariam mulheres e crianças.

Caso o número se confirme, as mortes representariam até um quinto de uma tribo inteira, e o massacre seria a maior tragédia contra indígenas que vivem sem contato com a sociedade em 24 anos. Em 1993, garimpeiros invadiram uma reserva indígena em Roraima e mataram 16 índios Yanomami, da aldeia Haximu.

Ainda de acordo com a organização, as mortes teriam ocorrido perto do rio Jandiatuba, dentro do território indígena Vale do javari. Os garimpeiros teriam se vangloriado dos assassinatos, mostrando "troféus" pela região, como as flechas e objetos indígenas.

Também divulgada pela organização, uma foto de satélite datada de dezembro de 2016 mostra ocas queimadas na região, o que indicaria "evidências de um ataque".

© Survival International/Funai

A área sob investigação fica nas proximidades dos rios Jandiatuba e Jutaí, próximo à fronteira com o Peru, a cerca de 1.000 km de Manaus. O Vale do Javari é conhecido como "Fronteira Isolada Amazônica" porque tem o maior registro de índios isolados do mundo. "As tribos isoladas são os povos mais vulneráveis do planeta", acrescentou a organização.

© Google Maps

Críticas ao governo Temer

De acordo com a agência Amazônia Real, a atividade garimpeira ilegal na região do Jandiatuba acontece há anos, mas se agravou desde 2016.

Conforme informou o coordenador da Frente de Proteção Etnoambiental do Vale, Gustavo Sena, as dargas (equipamentos utilizados para extração de minério) ultrapassaram os limites das terras indígenas e garimpeiros ameaçam a população local. "Todo o entorno da TI Vale do Javari sofre pressão externa", disse à agência.

Isso ocorre, segundo a ONG Survival International, por causa da redução do orçamento do governo brasileiro para a proteção dos territórios indígenas.

"O corte no orçamento da FUNAI deixou dezenas de tribos isoladas sem defesa contra milhares de invasores – garimpeiros, fazendeiros e madeireiros – que estão desesperados para roubar e pilhar suas terras. Todas estas tribos deveriam ter tido suas terras devidamente reconhecidas e protegidas há anos", disse o diretor da Survival International, Stephen Corry. "Caso tais relatos sejam confirmados, o Presidente e seu governo possuem uma grande responsabilidade por este ataque genocida."

A ONG acrescentou ainda que outras tribos isoladas, como os Kawahiva e os Piripkura, também podem ter sido invadidas e estão cercadas por centenas de fazendeiros e invasores.

"O governo do Presidente é extremamente anti-indígena, e possui laços fortes com a poderosa bancada ruralista. O apoio aberto do governo àqueles que querem abrir territórios indígenas é extremamente vergonhoso, e este suposto massacre poderia ter sido, e foi, previsto."

Primeira Edição © 2011