Especialista em Estado Islâmico defende ação do governo contra o terrorismo

28/07/2016 10:26

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Folha Online

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O Brasil não participa da coalizão que combate o Estado Islâmico, não tem histórico de extremismo e está muito distante de locais afetados pelo terrorismo. Mesmo assim, está vulnerável a um ataque da facção durante os Jogos Olímpicos, principalmente um atentado dos chamados "lobos solitários".

"Basta [o EI] inspirar um único indivíduo fanático ou demente para fazer um ataque", diz o jornalista irlandês Patrick Cockburn, um dos maiores especialistas mundiais em EI, autor de dois livros sobre o assunto.

Ele não vê exagero na prisão de 12 pessoas pelas autoridades brasileiras por suposta ligação com a facção terrorista, que teria sido evidenciada por comentários no Facebook. "Considerando que muitos dos envolvidos nos ataques deixam como único rastro a simpatia pela facção, expressa pelo Facebook, eu acho razoável deter pessoas nessas circunstâncias."

Abaixo, os principais trechos da entrevista concedida pelo correspondente do jornal britânico "Independent" para o Oriente Médio:

Folha - O senhor foi um dos primeiros analistas a prever a ascensão do Estado Islâmico. Considerando o histórico do grupo, quão provável ou característico seria um ataque durante os Jogos Olímpicos?

Patrick Cockburn - O EI prefere fazer atentados quando consegue dominar o ciclo de notícias. Os Jogos podem ser uma oportunidade como essa. Por outro lado, eles frequentemente escolhem alvos que não são totalmente esperados. Como eles têm civis como alvo, é muito difícil garantir totalmente a segurança. Mas, obviamente, medidas de segurança podem ser úteis pelo menos para evitar um massacre.
Muitos ataques, como o assassinato de um padre na França, são cometidos por pessoas que se inspiram no EI e a facção depois reivindica o atentado. Os autores normalmente são pessoas marginalizadas ou com problemas mentais. Outros atentados, como o de Paris e o de Bruxelas, são planejados de forma mais cuidadosa e orquestrados por comandantes do EI, pelo menos em parte.

Autoridades brasileiras prenderam 12 homens supostamente ligados ao EI e que estariam planejando ataques. Como indícios, elas citaram que os homens estavam postando comentários e fotos no Facebook apoiando o EI. É legítimo prender pessoas simplesmente por apoiar o EI em redes sociais? Isso é uma forma eficiente de evitar ataques ou simplesmente é violar a liberdade de expressão?

Considerando que muitos dos envolvidos nos ataques —particularmente os inspirados pelo EI, e não organizados pelo grupo— deixam como único rastro a simpatia pelo EI expressa pelo Facebook, acho razoável deter pessoas nessas circunstâncias. Obviamente, a maioria das pessoas detidas não será culpada de nada além disso. Muitos dos que pretendem agir são inteligentes o suficiente para não expressar suas opiniões nas redes sociais, então a eficácia dessas medidas contra o terrorismo é limitada, mas ainda é válida.

Atualmente, quantos combatentes o EI tem e qual o tamanho do território que domina?

O EI vem perdendo poder sobre cidades populosas como Ramadi e Fallujah, no Iraque, e Palmira, na Síria, além de vastas áreas semidesérticas. Isso é sério. Mas, no resto do mundo, vem se expandindo, em lugares como Líbia, Iêmen e Afeganistão. E ele demonstra o poder de mobilizar células em um país para atacar em outro, como no atentado recente no aeroporto de Istanbul, perpetrado por combatentes da Tchetchênia e da Ásia central. Eles também têm um amplo pool de possíveis combatentes em países como a França, onde há 5 milhões de muçulmanos originários de Argélia e Tunísia, com histórico de antagonismo ao governo francês. Hoje, o número de combatentes do EI fica entre 30 mil e 50 mil, mas a facção consegue mobilizar muitos outros para batalhas específicas.

Podemos esperar mais ataques do tipo "lobo solitário", como o de Nice?

Certamente, esses ataques estão "em alta" no momento. O declínio do EI no Iraque e na Síria é difícil de reverter, porque ele enfrenta exércitos apoiados por forças aéreas poderosas dos EUA e da Rússia. Mas eles podem sempre recorrer à guerrilha e aos atentados terroristas. Além disso, sempre há acontecimentos que podem favorecer a facção, como a tentativa fracassada de golpe na Turquia, em 15 de julho, que levou a um enfraquecimento do exército e das forças de segurança turcas e a uma maior islamização do país.

O Brasil não faz parte da coalizão lutando contra o EI, não tem histórico de extremismo e fica muito longe dos locais afetados por terrorismo. O EI seria capaz de mobilizar recrutas no país ou enviá-los para cá para fazer um atentado?

Sim, basta inspirar um único indivíduo fanático ou demente. Mas ataques organizados, isso seria mais difícil.

RAIO-X — PATRICK COCKBURN

Nascimento
5/3/1950, em Cork-IRL (66 anos)

Ocupação
Correspondente para o Oriente Médio do jornal britânico "Independent".
É autor de dois livros sobre a ascensão do Estado Islâmico, entre eles "A origem do Estado Islâmico", da editora Autonomia Literária, além de livros sobre Saddam Hussein e a guerra do Iraque. Anteriormente, foi correspondente do "Financial Times" no Oriente Médio

Principais prêmios
Martha Gellhorn (em 2005), James Cameron (em 2006) e Orwell (em 2009)

Primeira Edição © 2011