Marketing de rede vira febre com promessa de ganhar dinheiro fácil

Negócio é considerado legal, mas especialistas chamam a atenção para falta de sustentabilidade

30/01/2013 13:19

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Marcelo Alves

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Obter uma renda extra que pode atingir altas cifras, ser premiado com viagens para o exterior e até mesmo com carro e tornar-se patrão num curto espaço de tempo, através de cadastro e gerenciamento de pessoas para trabalhar vendendo produtos do tipo cosméticos e alimentos naturais e nutricionais. Tudo isso pode ser conquistado com pouco investimento e, até mesmo, em alguns casos, sem nenhum capital. 

Estas promessas são feitas por algumas empresas que integram o chamado marketing de rede, que está se tornando uma febre em cada esquina, ambiente de trabalho, escola, faculdade, vizinhança e até mesmo no seio familiar há alguém envolvido no negócio e que lhe propõe incorporá-lo na empreitada.

Diante desta tendência do marketing de rede, o portal Primeira Edição entrevistou pessoas que trabalham para estas empresas, os chamados distribuidores independentes, bem como conversou com estudiosos da área de marketing para averiguar se a empreitada é legal e se há alguma “casca de banana” por trás de toda promessa.


Distribuidor conta que além da renda extra, ganhou dólares e viagem aos EUA

Convencido, por uma amiga, a comprar um suco à base da babosa, para se curar de uma tendinite no ombro direito, quando ainda morava em Natal (RN), em 2005, o oficial aposentado da Força Aérea Brasileira Aguinaldo Soares adquiriu o produto, tomou e melhorou do problema. Satisfeito, Aguinaldo Soares continuou usando o produto. Mas essa sua amiga lhe fez outra proposta e o convenceu a entrar na empresa para ganhar uma renda extra e obter premiações.

 Miguel Goes 

Outra vez convencido, entrou no negócio. Mas antes, pesquisou sobre a história da empresa. Após o estudo, ele se encantou com as informações obtidas e comprou uma quantidade maior do suco, entrando na empresa como consumidor, obtendo sua renda.

A partir daí, o oficial aposentado passou a oferecer o suco a seus familiares e amigos, cadastrando-os e costurando sua rede, deixando, assim, de ser apenas consumidor para se tornar um distribuidor independente. De cadastro em cadastro e de venda em venda, o dinheiro extra caia na conta bancária de Aguinaldo Soares. Para sua surpresa, uma pessoa que ele cadastrou em Recife (PE) quando esteve a passeio na cidade em 2006, já o havia superado nas vendas e na renda. “Minha amiga, que me cadastrou em Natal (RN), chamou-me a atenção sobre o desempenho desse rapaz”.

Após o puxão de orelha, Aguinaldo Soares ampliou ainda mais sua rede, deixando de ser distribuidor, passando a subir de níveis na empresa, isto é, de cargo, chegando à gerência (três níveis abaixo do maior cargo que chega a ganhar milhões de reais) e como conseqüência teve um aumento na renda extra. Segundo o distribuidor independente, para subir de nível e gozar de mais benefícios e receber um maior percentual em cima de sua rede, foi preciso bater metas de vendas cada vez maiores.

Durante oito anos na empresa, ele contou que foi premiado com uma viagem para os EUA junto com sua esposa, a empresária Vera Maria Couto, 70, que também é distribuidora independente. “Fomos ao EUA e conhecemos a empresa que atuamos como distribuidor independente. Tudo pago pela empresa. Ao chegar ao hotel, havia na cama produtos da empresa e também dólares”.

“Não investi nada e já ganhei um extra”, comemora o funcionário público

Enquanto há empresas de marketing de rede que para ingressar e usufruir benefícios é necessário investimento como a que atua Aguinaldo Soares, existem outras como a que integra o funcionário público e mestre em agronomia pela Universidade Federal de Alagoas (Ufal) Thiago Jorge, de 30 anos, que nem é preciso ter capital para entrar no negócio. “Eu mesmo estranhei quando fui convidado a me cadastrar nesta empresa de cosméticos, porque para se investir em um carrinho de caldo de cana é necessário ter no mínimo mil reais”, relembrou.

    Jessica Pacheco    

Após alguns dias com o pé atrás para entrar na empreitada, ele fez como Aguinaldo Soares e também foi investigar a empresa. Encantado com as informações que leu, Thiago Jorge foi à procura de seu amigo, cadastrou-se e, em seguida, começou a formar sua rede. Com três meses como distribuidor independente, ele possui mais de cem pessoas cadastradas e já está ganhando um acréscimo de 20% de sua renda que recebe como funcionário público. Ele conta que esse percentual é resultado de seu empenho nas vendas e também no desempenho das pessoas de sua rede, uma vez que tem direito a percentuais na venda das pessoas que cadastrou.

Apesar de ter direito a um valor das vendas de seus cadastrados, José Jorge não se vê como patrão. “Não sou patrão. Eu só cadastro e oriento as pessoas durante palestras sobre como negociar. Até porque não há vínculo empregatício. Sou o elo da empresa com o consumidor. Pode-se dizer que sou o garoto propaganda da empresa”.

Thiago Jorge faz questão de ressaltar que o produto que vende é bom e também tentou persuadir a equipe de reportagem do Primeira Edição para se cadastrar na empresa. Ele disse ainda que além de obter uma renda extra, seu objetivo na empresa é ampliar sua rede de relacionamento. “Na minha rede há pessoas sem nenhuma escolaridade, bem como professores e universitários”.

Questionado sobre a facilidade do negócio, Thiago Jorge orienta que quem quiser entrar na empreitada tem que “tirar o cavalinho da chuva” e se empenhar em vender os produtos. “Dinheiro não cai do céu”.


Especialistas garantem legalidade, mas criticam a facilidade prometida

Doutora em Administração pela Universidade de São Paulo (USP) e professora da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), Luciana Peixoto Santa Rita, garante a legalidade do marketing de rede,  apesar da ausência de pagamento de impostos. “O marketing de rede é um sistema de distribuição que movimenta bens e serviços legítimos com valor comercial. Ou seja, eles movimentam do fabricante diretamente para o consumidor, por meio de uma rede de distribuidores independentes”, explicou. Luciana Santa Rita avisa que para quem entra para o marketing de rede, é necessário empenho porque há possibilidade de fracasso. "Se o distribuidor independente não se empenhar e também sua rede não vender, pode, sim, haver uma possibilidade de fracasso".

Já o especialista em marketing digital, Gustavo Ferreira Accioly, mostra-se preocupado a exploração do marketing de rede e a sua falta de sustentabilidade. Gustavo Accioly alerta para as chamadas pirâmides que podem ser construídas, utilizando-se da mesma estratégia do marketing de rede que é a de cadastrar pessoas para obter uma renda extra.

        Miguel Goes        

“Eu não acredito que este modelo de negócio, o do uso de pirâmides, seja sustentável, característica que julgo fundamental para efetuar o cadastro em qualquer empresa de multinível. Além do mais, ela sofre de vícios sérios de constituição, que é um outro fator que a deixa em um estado de incerteza. Acredito que se ela não fizer modificações estruturais em breve poderá chegar a estágios críticos em suas finanças, causando frustração em muitos divulgadores, ou chamados distribuidores”, afirmou.

Ele ressaltou ainda que somente  poucas pessoas conseguem obter lucros e uma quantidade ainda menor chega ao topo, ou atinge o cargo máximo prometido pela empresa. Gustavo Accioly revela que toda semana é promovida uma reunião destas empresas para recrutar mais pessoas para a rede.

A coordenadora do curso de Marketing de uma Faculdade de Tecnologia de Alagoas (FAT), Ana Caroline Beltrão, que também é graduada em Administração pela Universidade Federal de Alagoas (Ufal), chama atenção para o fato de que ninguém ganha dinheiro de forma legal sem esforço. “É preciso que se entenda um princípio básico:

“Não existe ganho de dinheiro de forma lícita, sem trabalho duro e dedicação. Por menor que seja o “risco da proposta feita”, será preciso gastar tempo, investir em comunicação, networking e em sola de sapato também”, disse. Ela acrescenta que qualquer pessoa pode cair nesta rede, independente da classe social e do nível escolar. “O discurso de ganhar dinheiro, representando produtos de segmentos variados seduz pessoas de todas as classes sociais e vários segmentos de profissões”.
 

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