Desafio em museu a céu aberto na Estrada Real

Ciclistas exploram o lado mais radical da rota, que encanta os viajantes com belezas naturais, História e artesanato

23/06/2012 14:33

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O Globo

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Aberta pelos bandeirantes em busca de ouro e diamantes a pedido da Coroa Portuguesa, a Estrada Real, o caminho histórico que ligava a região mineradora ao litoral, revela-se hoje um destino desafiador e cativante para ciclistas e aventureiros. Foi esta uma das minhas principais constatações junto com Jaime Vilaseca, Flavio Forner e Daniel Ramalho, todos da equipe Miramundos, que percorreu recentemente, de bicicleta, cerca de 800km de Minas Gerais ao Estado do Rio para registrar a vida, as belezas e as surpresas da Estrada Real, três séculos depois da criação deste trajeto. O percurso que pode ser reconhecido internacionalmente em 2015 como Rota Cultural da Unesco — o mesmo status obtido pelo Caminho de Santiago, na Espanha — é um prato cheio para quem viaja em busca de emoções. O legado artístico e cultural faz deste roteiro um museu a céu aberto, com uma série de aquedutos, chafarizes, casas, fazendas, igrejas, pelourinhos, pontes, túneis, minas desativadas e muito mais. Os destaques estão abaixo e em uma websérie produzida pela 

No Caminho Velho, a riqueza colonial

A Estrada Real, que corta os estados de Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo, é formada por um conjunto de quatro caminhos: Velho, dos Diamantes, Novo e de Sabarabuçu. Juntos eles contemplam 199 cidades ao longo de 1.600 quilômetros sinalizados por 1.926 marcos. Repleto de atrativos coloniais preservados, construções históricas, belezas naturais, trilhas de todos os graus de dificuldade e uma população altamente receptiva, os percursos proporcionam aos viajantes uma oportunidade de se aventurar na natureza, conhecendo melhor o Brasil. A melhor época do ano para fazer esta viagem acaba de começar: de junho a agosto chove menos na região.

Também se pode percorrer a Estrada Real a pé, a cavalo, de moto ou em veículos 4x4, mas a mountain bike proporciona os momentos mais radicais. Na expedição da Miramundos, realizada há cerca de um mês, optamos pelo Caminho Velho, que vai de Ouro Preto (MG) a Paraty (RJ), a primeira via aberta para ligar a região mineradora ao mar, por onde toda a riqueza era exportada para a Europa. Durante 15 dias, o multiesportista Jaime Portas Vilaseca e eu viajamos por estas estradas de bicicleta num trajeto de cerca de 800km, acompanhados dos fotógrafos Daniel Ramalho e Flavio Forner em um carro de apoio. Durante este período, compartilhamos diariamente pelo blog Miramundos nossas experiências.
Saímos de Ouro Preto, onde visitamos a Mina de Santa Rita, uma das mais antigas da cidade. Lá tivemos a oportunidade de entrar e rastejar por túneis para tentar sentir o clima em que tantos escravos trabalharam na extração do ouro. Antes de entrarmos de fato no Caminho Velho, passamos por algumas cidades próximas de Ouro Preto que esbanjam atrativos interessantes e belezas naturais. A primeira parada foi Catas Altas, onde conhecemos a fazenda das Irmãs Lopes, que produzem há 49 anos um delicioso vinho de jabuticaba, e a ruína do Bicame de Pedra, um aqueduto construído em 1792 por escravos.
De lá passamos por Santa Bárbara e dormimos no Santuário do Caraça, eleito uma das Sete Maravilhas da Estrada Real. Trata-se de um antigo e tradicional colégio católico que já formou presidentes da República, desativado após um grande incêndio. Reconstruído, hoje no local funciona uma pousada procurada por viajantes em busca de paz e contato com a natureza.

Situado no meio da mata, o complexo conta com igreja, museu e é rodeado de montanhas, rios e cachoeiras. Todas as noites os padres alimentam uma família de lobos-guarás com pedaços de carne, num ritual que se repete há 30 anos e faz sucesso entre os visitantes.
Partimos para Barão de Cocais, onde visitamos a Pedra Pintada, um sítio arqueológico que tem desenhos feitos há dez mil anos. No caminho para Caeté, subimos até o alto do Santuário de Nossa Senhora da Piedade, onde se destaca a vista de 360 graus. Fizemos uma parada na Cachoeira da Cambota para um mergulho e nos arriscamos em uma tirolesa no Parque de Aventura Canela de Ema — um complexo ecológico que oferece atividades esportivas em meio à natureza: alpinismo, rapel, canoagem, arvorismo.

Depois de percorrermos os caminhos dos Diamantes e de Sabarabuçu, descemos para Congonhas, a cidade dos profetas do mestre Aleijadinho, para nos conectarmos então ao Caminho Velho rumo a Paraty. Partimos em direção a Casa Grande em um dos trechos mais duros da viagem, onde enfrentamos algumas das mais desafiadoras trilhas da expedição, separados do carro de apoio.

No penúltimo dia de expedição, subimos parte do caminho até Cunha de carro para evitar os asfaltos que cobriram a maior parte da Estrada Real original. Lá, ficamos surpresos com o charme da cidade conhecida pelos seus Fuscas e pela produção de cerâmica artesanal. O aguardado downhill de cerca de mil metros de desnível ao longo de 20km entre Cunha e Paraty foi feito no 15 e último dia da expedição. No meio do caminho, por entre as árvores, o viajante é surpreendido pela arrepiante vista do mar de Paraty. Quando se chega à cidade histórica após tantos dias de experiências novas e desafios superados, a sensação é de missão cumprida.

Primeira Edição © 2011