‘Fiz coisas boas para o País, não me arrependo’, diz ex-ministra de Collor

25/05/2012 07:05

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No dia 15 de março de 1990, aos 37 anos, Zélia Cardoso de Mello se tornou a primeira mulher a assumir o Ministério da Fazenda do Brasil. Um dia depois, Zélia entraria , e para a memória coletiva brasileira, como a ministra que confiscou a poupança.

Com uma expressão séria e profundas olheiras, a então ministra fez um anúncio que estarreceu o País: além de congelar salários e preços, demitir milhares de funcionários públicos, abrir a economia para importações e acabar com inúmeras instituições públicas (que haviam sido criadas durante a ditadura militar), todas as contas bancárias e poupanças do País amanheceriam no dia seguinte com não mais que 50 mil cruzados novos, cerca de R$ 6 mil nos dias de hoje. O valor que excedesse esse número ficaria congelado no Banco Central por 18 meses.

Hoje, mais de 20 anos depois, Zélia diz que não se arrepende das suas decisões no comando da Fazenda porque fez “coisas muito boas para o País”. Diz ainda que “provavelmente faria tudo de uma forma diferente”, mas ainda hoje está para ser “convencida de que haveria uma maneira melhor de resolver o problema da inflação”. “Essa frase eu gostaria que você publicasse na íntegra: nós estávamos à beira da hiperinflação. Então nós tivemos que escolher entre a hiperinflação, com a destruição total de riqueza, e a reforma monetária, que foi drástica, eu reconheço, que foi difícil, eu reconheço, que trouxe sequelas, eu reconheço, mas que evitou a hiperinflação”.

Apenas 15 meses depois de assumir o Ministério da Fazenda, com a sua imagem extremamente desgastada e em meio a um caso amoroso com o então ministro da Justiça, Bernardo Cabral (que era casado), Zélia pediu demissão. Na entrevista, após avisar que não falaria sobre questões pessoais, ela chama o episódio de “uma questão pessoal impertinente”.

Zélia conta que não tem mais contato com o ex-presidente Fernando Collor de Mello: “Ele mora em Brasília, é senador, eu moro em Nova York. São vidas muito diferentes”. E, sobre o impeachment, quando Zélia já não estava no governo, a ex-ministra considera “incrível” o desfecho das denúncias contra Collor: “Não me passou pela cabeça que chegaria tão longe”. Na sua opinião, o impeachment foi um “aprendizado de democracia meio radical”.

Zélia vive em Nova York há 14 anos, é sócia em uma consultoria que ajuda investidores a lançarem negócios no Brasil e administra pequenos portfolios de investimento. Questionada se voltaria ao País, responde: “Não (...) Aqui eu sou bem anônima. No Brasil, por incrível que pareça, mesmo depois de 22 anos, eu ainda não sou”.

Apesar de continuar perseguida pelo estigma de ser a ministra que confiscou a poupança, Zélia diz que poucas vezes teve reações negativas na rua: “É normal... às vezes ficam bravos, mas poucas vezes”.

O apartamento de Zélia fica no nordeste do Upper East Side, zona residencial típica da classe média alta de Nova York, onde vive com os dois filhos que teve com o humorista Chico Anysio. Eles têm um gato de estimação. A entrada onde ficam porteiro e concierge é distinta, mas simples, toda em madeira.

O aluguel de um apartamento no edifício deve custar em torno de 7 a 10 mil dólares por mês. No apartamento da ex-ministra a decoração é clássica, com móveis antigos e muitos tapetes persas. Há dezenas de fotografias espalhadas pela sala, muitas delas da época em que Zélia fazia parte do governo Collor.

Em destaque, uma grande imagem dela com um vestido branco e outra ao lado da ex-primeira-ministra britânica Margaret Thatcher. Foi lá que ela recebeu o iG para uma conversa franca, sobre erros e acertos do período que marcou a história política do País.

Ao abrir a porta para a reportagem, Zélia desculpou-se fortemente pela “bagunça na sala”, justificando que tem empregada apenas uma vez por semana - algo bem comum em Nova York.

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