Família apátrida conta sua odisseia após fugir de perseguição no Vietnã

16/03/2012 13:27

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EFE

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Mesmo depois de sofrer os abusos do regime vietnamita, atravessar florestas e sobreviver em um campo de refugiados do Camboja, a odisseia da família Bahnar, considerada apátrida, continua, como acontece com todos aqueles que esperam ser amparados por algum país.

Os quatro integrantes dessa família da minoria étnica degar, habitantes das montanhas do Vietnã, fazem parte da legião de 12 milhões de apátridas dispersa pelo mundo, segundo a Organização das Nações Unidas.

Presos em um 'limbo legal' e excluídos de assistência pela maioria das organizações humanitárias, os degar, que vivem espalhados por várias zonas montanhosas de Indochina, denunciaram a negligência internacional, a falta de direitos e a perseguição pelas autoridades do Vietnã.

A família afirmou que o regime comunista do Vietnã não gosta de suas crenças cristãs e do fato de terem se aliado às forças americanas durante a guerra (1965-1975).

Os Bahnar, que se identificaram com um sobrenome falso para evitar represálias a familiares, fugiram do Vietnã e agora vivem em um pequeno apartamento de Bangcoc concedido pela Fundação do Comitê Tailandês para os Refugiados.

Nesse apartamento convivem a mãe, Van, de 37 anos, com seu filho de 10 e sua filha de 13, e Duyên, uma parente de 27. Todos são considerados apátridas de fato, já que têm formalmente a nacionalidade, mas essa cidadania não garante proteção efetiva a eles.

'No Vietnã, a Polícia nos prendeu várias vezes porque somos cristãos, não tínhamos liberdade. Meu marido morreu três dias depois de sair da prisão pelas surras que recebeu', relatou Van à Agência Efe.

Em sua aldeia, a família sofria constantemente abusos por parte da Polícia, que chegou a apreender seus celulares para não ligarem ao exterior, e as crianças foram proibidas de frequentar a escola e ir ao médico.

As represálias, incluindo as detenções e torturas, aumentaram em sua aldeia quando há oito anos os degar decidiram se manifestar em protesto contra a proibição de realizar serviços religiosos.

Após a morte do pai, a família Bahnar fugiu do Vietnã pela fronteira com o Camboja. Depois de andar durante três dias pela selva, Van e seus dois filhos chegaram ao país vizinho, onde encontraram Duyên em um campo de refugiados das Nações Unidas.

Sete meses depois, e diante da ameaça de uma repatriação ao Vietnã, a família Bahnar conseguiu escapar e atravessou o Camboja de leste a oeste para chegar à fronteira tailandesa.

Os Bahnar conseguiram sobreviver na cidade de Chiang Mai, no norte da Tailândia, graças à ajuda humanitária prestada por um agrupamento, até que a Polícia os levou a um centro de detenção de Bangcoc, onde passaram um ano e oito meses.

'As mulheres e as crianças dormiam sobre cobertores colocados no chão em um quarto comum, não havia lugar suficiente. Só podíamos ir ao pátio duas vezes por semana, durante uma hora e meia e a comida sempre era pouca', lembra Duyên.

A Tailândia não reconhece o status de refugiado ou apátrida, já que não é signatária das convenções das Nações Unidas, mas libertou a família em resposta às gestões da Fundação do Comitê Tailandês, sobre a base de que a legislação local protege os menores.

Agora, os Bahnar esperam que as Nações Unidas ofereçam a eles uma oportunidade de abrigo em outro país.

As crianças, que durante a odisseia aprenderam um pouco de tailandês e inglês, frequentam, enquanto isso, um colégio de Bangcoc e foram vacinadas contra a hepatite A e B, o tétano e a pólio.

'Elas estão física e mentalmente bem. São abertas e não têm medo de falar', explicou a médica Kobkul Wattanawong, do hospital BNH, onde foram atendidas.

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