Sintonia: Grêmio e Luxemburgo se unem por dupla retomada de vitórias

Técnico e clube gaúcho amargam períodos sem títulos de expressão nacional e têm chance de, juntos, recuperar a confiança perdida

22/02/2012 05:36

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Globoesporte.com

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Pode-se dizer que a necessidade uniu Grêmio e Vanderlei Luxemburgo. De um lado, um clube grande, com uma extensa história de títulos, mas há mais de década sem conhecer o sabor de uma conquista nacional. À sua frente, em busca de nova chance, um técnico com um currículo igualmente recheado de taças, porém ameaçado por um passado recente de insucessos. Assim, as duas pontas se encontraram nesta terça-feira, tal qual num pacto, para dar fim à longa espera na fila, sempre observados por olhos desconfiados. É hora de voltar a vencer. Em dose dupla.

- É uma oportunidade para ambos. Os dois querem a mesma coisa - endossa Valdir Espinosa, técnico campeão da Libertadores e do Mundo pelo Grêmio em 1983, que, ao ser questionado pelo GLOBOESPORTE.COM, disse estar satisfeito com a nova opção do clube.

Há mais de 29 anos à beira do gramado, sempre enfiado em ternos italianos bem cortados, Luxemburgo, 59 anos, já passou por 18 clubes e sustenta pelo menos 27 troféus de relevo na estante. Nos últimos anos, no entanto, a sua carreira entrou em declínio. E a sua imagem irretocável de pura competência rumou para o mesmo destino. Assim como o Grêmio, que não conquista um título nacional desde 2001, o carioca de Nova Iguaçu amarga uma generosa seca. Seu último Brasileirão foi em 2004, pelo Santos. Desde então, se alimenta de títulos estaduais (três paulistas, um mineiro e outro carioca) - importantes, mas longes de sua rotina avassaladora de anos atrás.

Títulos para esbanjar - até 2004

Avassaladora entenda-se cinco Campeonatos Brasileiros, um recorde até então inatingível por outro técnico no país. Também levantou uma vez a maior especialidade do Grêmio, a Copa do Brasil. Com o Cruzeiro, em 2003, alcançou a Tríplice Coroa, após garantir o Mineiro, a Copa do Brasil e o Brasileirão, no primeiro ano da era dos pontos corridos, com a melhor campanha executada até hoje nesse modelo. Venceu com duas rodadas de antecedência e vantagem de 13 pontos sobre o Santos, vice-campeão, e assombrosos 72,4% de aproveitamento.

A sua recente carência de conquistas além dos limites estaduais em nada atormenta o Grêmio. De acordo com o diretor-executivo Paulo Pelaipe, a competitividade do futebol brasileiro força um revezamento de clubes, e técnicos, no lugar mais alto do pódio. E cita o ex-gremista Tite para confirmar a sua tese.

- O futebol brasileiro tem muita disputa - justifica, à Rádio Gaúcha. - O Tite, por exemplo, conquistou a Copa do Brasil pelo Grêmio em 2001 e só foi voltar a vencer em nível nacional agora, em 2011.

Luxemburgo x Grêmio

Direta ou indiretamente, Luxemburgo já cruzou o caminho da Azenha. Primeiro, protagonizou com o seu Palmeiras uma das mais ferrenhas rivalidades dos meados da década de 1990 com o Grêmio de Luiz Felipe Scolari. Os embates entre paulistas e gaúchos por Libertadores, Copa do Brasil e Brasileirão extrapolavam os limites das quatro linhas. Muitas vezes, inclusive, tomavam rumos medonhos, de pancadaria entre jogadores e torcedores.

Em 1996 (Vanderlei havia saído do Verdão em 1995, depois de ser bi do Brasileirão em 1993/94), pela Copa do Brasil, o Palmeiras tirou o Grêmio da final em partida dramática no Olímpico, com direito a gol anulado de Jardel nos minutos finais. No Brasileirão do mesmo ano, o Grêmio deu o troco, eliminando o rival nas quartas de final no Morumbi.

Dinho viveu intensamente essas partidas decisivas, que incluía sucessivas broncas de Luxemburgo sobre o estilo mais pegador dos gaúchos. O ex-volante minimiza as rusgas do passado e vê com otimismo a chegada do novo técnico ao clube com o qual se identifica até hoje. É capaz de até ver em Luxemburgo traços do perfil mais expansivo e espontâneo consagrado por Scolari.

- É um treinador que está à altura do Grêmio - define. - Ele tem características que o gaúcho aprova. Tem disciplina, pulso firme e fala a língua do jogador. Não adianta falar bonitinho. É preciso ser direto, e ele é assim. Chega e fala. Não é de se esquivar. Nesse sentido, se aproxima de Felipão.

Relação instável (e longa) com filho do Olímpico

O Grêmio foi algoz de Luxemburgo em outras três oportunidades: nas Copas do Brasil de 1997 (Flamengo) e 2001 (Corinthians) e na Libertadores de 2007 (Santos). Anos depois, coube a Luxemburgo ajudar um gremista. Pelas mãos desse carioca de Nova Iguaçu, Ronaldinho voou ao estrelato.

Com a convocação pronta para a Copa América, o então técnico da Seleção viu o jovem gremista barbarizar na final do Gauchão de 1999, com direito a chapéu no veterano Dunga. Enquanto isso, Edilson, que estava em sua lista, protagonizava uma confusão generalizada no clássico entre Palmeiras e Corinthians. Luxemburgo agiu rápido e fez a troca, Edilson por Ronaldinho. Acertou em cheio. O filho da Dona Miguelina só fez decolar a partir do primeiro chamado da CBF.

Em 2000, no entanto, surgiu o primeiro estremecimento na relação entre técnico e craque (muito mais seria visto no Flamengo, 11 anos depois). Luxemburgo deixou de convocar Ronaldinho certa vez por considerá-lo fora de forma. A resposta do então gremista foi em campo e nos microfones. Diante da Portuguesa, fez questão de levantar várias vezes a camisa para atestar seu baixo percentual de gordura.

- Como vocês podem ver, estou no meu peso. Nunca tive fama de gordinho - disparou, na saída do campo, cercado de câmeras e microfones.

Nas rusgas mais recentes entre R10 e Luxa no Flamengo, envolvendo broncas por supostas noitadas do meia, o técnico recebeu críticas de um velho conhecido. Paulo Nunes, que enfrentou Luxemburgo e também foi um de seus comandados no Flamengo e no Corinthians, ficou ao lado do jogador. Polêmico, preferiu comentar apenas o lado profissional do técnico.

- Como treinador é indiscutível. Para mim, existem ele e Felipão. Como pessoa, aí já é outra coisa - disse Paulo Nunes, em entrevista à TV Globo, em janeiro.

Bons momentos e apuros na Seleção

Por falar em amarelinha, a passagem de Vanderlei na Seleção durou cerca de dois anos, entre 1998 e 2000, conseguindo dois títulos, a Copa América e o Pré-Olímpico.

Fracassou, no entanto, nas Olimpíadas de Sydney, quando perdeu para Camarões com dois jogadores a mais em campo. Em 32 partidas, foram 20 vitórias, sete empates e cinco derrotas - aproveitamento de 70% dos pontos, mas sem aprovação do público.

Real Madrid: do sonho ao desabafo

Outro momento importante de Luxemburgo aponta para a Espanha. A experiência durou um ano, entre dezembro de 2004 e 2005. O treinador fez 45 partidas oficiais pelo Real Madrid, com 28 vitórias, sete empates e 10 derrotas. O choque de culturas pesou, desde o estranhamento com o idioma até a diferente rotina de treinamentos. Mesmo assim, uma goleada sofrida no clássico local foi determinante. Sua situação ficou realmente complicada após a derrota para o rival Barcelona por 3 a 0, no Santiago Bernabeu.

- Me despediram achando que eu era um 'zé mané'. Se eles soubessem quem é o Vanderlei Luxemburgo, não teriam feito isso. No Brasil, jamais me demitiriam em meio a uma competição - afirmou na época.

Fritura no Rio, desafio em Porto Alegre

No entanto, a sua previsão estava equivocada. No Atlético-MG, por exemplo, Luxemburgo acabou demitido em meio ao Brasileirão de 2010 devido à campanha do Galo, que flertava com o rebaixamento. No Flamengo, acabou desligado do cargo logo após levar o time à fase de grupos desta Libertadores. Depois de ser comunicado de sua saída, foi aos microfones se defender (ou atacar), alegando que foi removido de sua função por questões extracampo, jamais pelos resultados de jogo:

- Foi o processo mais feio que já vivi. Fritura mesmo.

Com passagens bem menos vistosas de sua época pré-Real Madrid, Luxemburgo vê no Grêmio a chance de recomeçar. Mostrar ao Brasil que está longe de ser um técnico de métodos ultrapassados ou ideias já vencidas. Não por acaso, teria diminuído em mais da metade seu salário em relação ao que recebia no Flamengo. No Grêmio, especula-se que seu salário gire na casa dos R$ 450 mil. O técnico também abriu mão de sua tradicional comissão para treinar pela primeira vez um clube gaúcho. Junto com ele, segue para Porto Alegre apenas um auxiliar, provavelmente o preparador físico Antonio Mello.

- Consegui falar com ele pessoalmente - afirma Pelaipe. - Mostrou que tinha interesse, que gostaria de vir para o sul, que gostaria de vir para o Grêmio. É um novo desafio para ele.

Desafio de mão dupla, é bom ressaltar, pois vale para o Grêmio também. Desde o último título nacional do clube, em 2001, apenas Tite, Mano Menezes e Celso Roth conseguiram cruzar a barreira de um ano à frente da equipe gaúcha. A média é de uma dispensa a cada 7,8 meses. Se Luxemburgo resgatar esse bom hábito pouco exercitado ultimamente no Olímpico, todos saem ganhado. Clube, técnico e, claro, o torcedor.

Primeira Edição © 2011