Traumas podem trazer mudanças positivas, diz pesquisador

De acordo com pesquisa, o fato de passar por um trauma pode oferecer novas perspectivas para a vida

31/01/2012 15:49

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Terra

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Tragédias naturais, acidentes aéreos, atentados terroristas, assaltos. Estes são alguns exemplos de situações que podem deixar traumas irreparáveis entre os sobreviventes que, muitas vezes, acabam presenciando cenas horríveis e perdendo entes queridos.

Em coluna do jornal britânico Daily Mail, o professor Stephen Joseph discorre sobre o assunto. Ele é co-diretor do Centro de Trauma, Resiliência e Crescimento da Universidade de Nottingham, na Inglaterra, e esteve envolvido em pesquisas ligadas aos sobreviventes de um dos mais impactantes desastres marítimos do século 20. O acidente com a balsa Herald Of Free, na Bélgica, em 1987, deixou 193 mortos. Alguns meses depois, os advogados dos sobreviventes entraram em contato com o Instituto de Psiquiatria de Londres, pedindo ajuda.

O professor observou que, imediatamente após o desastre, os níveis de sofrimento psicológico estavam altos e muitos sobreviventes desenvolveram desordens pós-traumáticas como memórias angustiantes, pesadelos dificuldades para dormir e de concentração. Como já era de se esperar, muitos lutaram para lidar com isso, e viram seu trabalho e suas relações serem impactadas. Três anos depois, a universidade aplicou uma pesquisa de acompanhamento. Os níveis de sofrimento psicológico tinham baixado, embora muitos deles ainda tivessem que se esforçar bastante.

Além disso, durante o estudo, muitas coisas inesperadas aconteceram, segundo relata Joseph. Ele percebeu que muitos sobreviventes falavam sobre mudanças positivas em suas vidas: o trauma ofereceu uma nova perspectiva. Explorando isso, os pesquisadores envolvidos adicionaram uma nova questão ao questionário: "sua visão sobre a vida mudou depois do desastre - e, se sim, mudou de forma positiva ou negativa?"
Os resultados foram surpreendentes, segundo relata o especialista. Embora 46% disseram que a visão sobre a vida tinha mudado pra pior, 43% afirmaram ter mudado para melhor.

O lado positivo do trauma

A partir destes resultados, Joseph começou a olhar para o lado bom do trauma. Quando comentou com os colegas a respeito, alguns retrucavam dizendo que não há nada de positivo em um trauma. Ele concorda que de fato não há. No entanto, o grande esforço feito para que as coisas melhorem pode fazer com que as mudanças positivas aconteçam.

Joseph explica que a maioria das pessoas não vive sabiamente, com a responsabilidade, compaixão e maturidade que poderiam executar. E o trauma serve como uma "chamada" para que elas reflitam sobre isso. Em todo caso, a ideia da mudança pós tragédias pessoais depõe contra os livros de psicologia, que dizem que eventos devastadores podem ser um gatilho para problemas como depressão e ansiedade.

Pesquisadores estimam que 75% das pessoas vivenciam alguma forma de trauma ao longo da vida, como uma perda, o sofrimento de um ente querido, o diagnóstico de uma doença, a dor de um divórcio ou separação, um acidente.

No entanto, traumas são inesperados e estão fora do controle. Muitos sobreviventes são assombrados pelas cenas do ocorrido pelo resto de suas vidas. A nova psicologia do "crescimento pós-traumático" não nega esse fato. Mas também reconhece que há o outro lado da moeda - a dor também pode representar novas perspectivas.

Essas mudanças foram encontradas em pessoas que presenciaram o ataque terrorista de 11 de setembro. Um estudo com 1.382 adultos mostrou que aproximadamente 60% relataram benefícios, muitos deles relacionados aos laços com familiares e amigos, que foram reforçados. Estudos similares foram feitos com pessoas que vivenciaram o ataque em Madri, em março de 2004, quando uma bomba explodiu em um trem. Outra pesquisa mostrou benefícios entre pessoas que sofreram problemas médicos traumáticos como câncer de mama e ataques cardíacos.

Segundo explica o professor, o crescimento pós-traumático é um campo de estudo relativamente novo. Mas as descobertas já existentes são intrigantes. Especialistas da área enxergam o comportamento como o oposto do estresse pós-traumático, mostrando que as pessoas podem crescer por meio da dor. Joseph reforça que, apesar de a indústria farmacêutica estar trabalhando no desenvolvimento de pílulas capazes de diminuir os sintomas de um trauma, é importante que, quando ele chegar, as pessoas tentem confrontar a realidade, estar abertas à mudanças e preparadas para lidar com o sofrimento com sabedoria.

Primeira Edição © 2011