Caracterizado por alterações extremas, transtorno bipolar é grave, mas tem tratamento

27/01/2012 09:27

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Divulgação

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Uma alternância entre extremidades, com um período de exaltação extrema e outro de depressão profunda. Assim pode ser definida a vida de quem possui o transtorno bipolar, também chamada na linguagem psiquiátrica como psicose maníaco-depressiva. Bem diferente de como é conhecida popularmente, a doença está longe da simples variação de humor ao longo do dia e é bem mais grave do que parece à primeira vista.

Segundo a psiquiatra e consultora da Secretaria de Estado da Saúde (Sesau) Isabel Cristina Perini, a patologia é bastante séria e pode ser incapacitante para quem convive com ela. “Esses pacientes variam de um estado de diminuição de ânimo, angústia e desespero intenso para outro de elação maníaca, com euforia, mania de grandeza, irritabilidade e uma vontade exagerada de ser mais sociável, por exemplo”, define ela.

Outros sintomas da enfermidade são autoestima inflada, falta de sono – com uma média de três a quatro horas por noite –, maior eloquência, fuga de ideias, agitação psicomotora, hiperssexualidade e surtos incontidos de compras ou investimentos financeiros. Na fase depressiva, os sinais mais corriqueiros são perda de interesse e prazer em atividades de rotina, sensação de inutilidade ou culpa, diminição de energia e ideias recorrentes de morte ou suicídio.

 A especialista alerta, no entanto, que a passagem de um estado para outro depende de cada organismo. A mudança é variável e, em alguns casos, pode demorar até dez anos, tendo inclusive um período de estabilidade no meio. Cerca de 15% dos pacientes, porém, são cicladores rápidos, aqueles que mudam mais rapidamente de condição – um bipolar com mais de quatro ciclos por ano já pode ser classificado nessa categoria.

Diante do quadro, Isabel reforça a diferente entre a bipolaridade e as alterações de humor. “Você pode ter uma flutuação de humor, ser um ciclotímico, mas não ser bipolar. São dois aspectos diferentes e o transtorno é muito mais profundo, com outros sintomas. O bipolar também é confundido com a personalidade borderline, que varia de gentileza à raiva com uma facilidade imensa, mas esse é um transtorno de personalidade, não de humor”.

Diagnóstico e tratamento

Apesar dos sintomas extremos, descobrir a doença é difícil e apenas um psicólogo ou psiquiatra está capacitado para a tarefa. Isso porque, assim como outros transtornos mentais, a chamada psicose maníaco-depressiva também tem um diagnóstico complexo e baseado em uma série de critérios determinados, como tempo de duração e impacto no dia a dia, já que geralmente os sinais aparecem de maneira gradual.

“Diagnosticar uma patologia física é mais fácil, pois temos exames e uma comprovação física dela, podemos ver o órgão no qual ela está localizada. Com a questão mental é diferente”, diz Isabel Perini, acrescentando que, quando o paciente já possui consciência de sua condição, pode contribuir com o preenchimento diário de um afetivograma, onde ele registra todas as alterações de humor que teve ao longo de um determinado período.
Quando não diagnosticado, o mal pode trazer uma série de prejuízos para quem vive com ele e, por isso, Laeuza Farias, técnica do Núcleo de Saúde Mental da Secretaria de Saúde (Gensam), ressalta a importância de procurar ajuda profissional. “Se não tratada, a enfermidade pode prejudicar a vida da pessoa, com perdas no trabalho, na vida afetiva e na parte financeira. A família também precisa ser cuidada, já que pode ter dificuldade de lidar com isso”, diz.

O tratamento é feito por meio de terapia e medicamentos específicos – estabilizadores de humor e antipsicóticos para a fase maníaca e antidepressivos para depressão. “A oscilação de estados está ligada à oscilação de substancias no organismo. Por isso, precisamos do medicamento para fazer a estabilização. Alguns precisam dele para o resto da vida, enquanto outros podem ter melhora após algum tempo”, acrescenta Laeuza.
Mesmo que o uso de remédios seja temporário, é necessário acompanhamento constante. Uma das alternativas é o Centro de Atenção Psicossocial (Caps), que, além de equipes formadas por psicólogos ou psiquiatras, terapeutas ocupacionais e assistentes sociais, ainda disponibiliza a medicação para a doença. Atualmente, o Estado conta com 46 desses núcleos, que são administrados pelos municípios, espalhados por todas as regiões de saúde.

Outros dois, localizados no Hospital Escola Portugal Ramalho, em Maceió, devem ser inaugurados este ano. “Na capital, já temos cinco Caps, sendo um infantil e um direcionado para dependentes de álcool e drogas. O local também oferece atividades lúdicas de apoio”, expõe a técnica da Gensam, lembrando que Alagoas está entre os quatro primeiros em cobertura por número de habitantes no ranking nacional.

O tratamento é custeado pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e, após a liberação nos centros, os pacientes podem continuar o acompanhamento nos ambulatórios ou até mesmo por meio do Programa de Saúde da Família. “Com esse tratamento, ele consegue ter uma vida normal e fazer tudo o que qualquer pessoa faz”, diz Isabel Perini, destacando que, assim como outras patologias, a psicose maníaco-depressiva também tem características hereditárias.

Preconceito

Apenas 1% da população mundial é portadora da bipolaridade e 20%, porém, apresenta transtornos de humor, sendo a ansiedade o mais comum. Apesar da baixa incidência, o tema tem ganhado destaque na mídia, o que a psiquiatra e consultora da Sesau considera negativo. “Essa discussão tem sido muito negativa e vem criando falsos conceitos. As pessoas estão sendo rotuladas, gerando um preconceito com a patologia”, conta ela.

A técnica da Sesau concorda. “A questão tem sido muito debatida ultimamente, talvez por ter se tornado a doença da moda. Hoje em dia, todo mundo acha legal dizer que é bipolar. Ainda existe preconceito e desconhecimento com os transtornos mentais. Às vezes até a própria família ou o próprio paciente tem preconceito com isso ou com o fato de ter que tomar medicamentos” acrescenta Laeuza Farias.

As especialistas ressaltam, no entanto, que a informação é o melhor caminho. “Atualmente, porém, as informações estão mais acessíveis e qualquer um pode pesquisar até artigos científicos sobre o tema na internet”, diz a técnica. Já Isabel Perini destaca que o mal pode aparecer em qualquer fase da vida. “Qualquer um de nós pode ter isso. O transtorno pode surgir em qualquer idade, até mesmo na fase infantil, apesar de ser mais raro”, expõe.
 

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