Time de Eninho, Jeonbuk Motors realiza temporada no Brasil

26/01/2012 04:54

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Globo Esporte

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Concentração, treinos táticos, academia... O que arranca muitas caretas da maioria dos jogadores brasileiros por aí é lei para quem quiser arriscar a sorte na Coreia do Sul. No Jeonbuk - time da primeira divisão que está fazendo a pré-temporada no Brasil -, os jogadores treinam em três períodos por dia enquanto as competições não começam.

Há duas semanas concentrada em Itu, no interior de São Paulo, a delegação do "Verdão" se prepara para o "Coreanão" . E concentração para eles é concentração. Não tem moleza, não: os atletas - incluindo o brasileiro Eninho, que sonha em disputar uma Copa pela Coreia do Sul - treinam o dia inteiro. Os mais jovens do time bancam o "aspira" e ajudam fora de campo, carregando bolas e material esportivo. E lá, "Ai ,se eu te pego" , hit de Michel Teló que invadiu as paradas e os campos do mundo inteiro com a dancinha usada pelos astros da bola para comemorar os gols, foi ignorada pelos jogadores sul-coreanos.

- A gente tenta puxar umas danças, mas eles não acompanham. No último jogo do ano passado, comecei a dançar Michel Teló. Eles vieram me abraçar e cortaram a comemoração. Mas eu sempre danço, e este ano vou dançar mais, menos Michel Teló, porque já deu – brincou Eninho.

O brasileiro, que aos 30 anos sonha se naturalizar sul-coreano, é um dos que trabalham duro na puxada carga de horário integral do clube na pré-temporada em Itu.

- Os técnicos querem ver o time bem. Então, de manhã normalmente acontece um treino tático. À tarde, tem coletivo, e à noite, academia. Os jogadores reclamam. Afinal, jogador é igual em toda parte do mundo (risos) - brincou o preparador físico da equipe Fábio Lefunde.

Já que o assunto é concentração, em mais uma coisa os coreanos levam "vantagem" sobre os brasileiros: as críticas ao "confinamento" não ficam centradas em apenas uma pessoa. Os times da Coreia do Sul contam com três treinadores.

- Tem o técnico 1. Na ausência dele, assume o 2. Depois, o 3. A responsabilidade é dividida. Os técnicos também não costumam cair. Mas se isso acontece, quem assume é sempre o sucessor - contou Lefunde.

Outra peculiaridade dos coreanos é o tratamento aos jogadores mais jovens. Além de brigarem por posição, precisam ajudar o time fora de campo.

- Os novatos enchem as bolas, ajudam a carregar o material esportivo. Eles colaboram bastante.

O trabalho em equipe parece dar resultado. Criado em 1994 por um grupo de empresários, o clube conquistou a pequena cidade de Jeonju, que fica afastada do centro da Coreia do Sul. Sempre atraindo bom público, já levantou o caneco diversas vezes e obteve resultados expressivos em várias competições.

Lá, o calendário de jogos também é apertado. O Jeonbuk costuma participar de três torneios. São eles: Champions League, da Ásia (competição que reúne os melhores times do continente asiático – equivalente à Libertadores), FA Camp (torneio visto como a Copa do Brasil dos coreanos e que dá vaga ao campeão para disputar a Champions) e a K League (comparada ao Brasileirão e que também classifica três times para a Champions).

Apesar do pouco tempo de existência, o Jeonbuk conquistou, no ano passado, o bicampeonato coreano e ficou com o vice na Copa dos Campeões da Ásia, perdendo a decisão nos pênaltis para o Al Sadd, do Qatar. Em 2006, porém, o time ficou com o título da Champions e disputou no ano seguinte o Campeonato Mundial.

Em busca do sonho

Defender uma nação numa Copa do Mundo. Esse é o maior sonho de qualquer jogador de futebol. O meio-campista Eninho, por exemplo, já tem 30 anos e ainda quer disputar um Mundial. O atleta, que num passado não muito distante defendeu as cores do Grêmio , da Portuguesa, do Guarani, do CRB e do São Caetano, atravessou o mundo em busca deste objetivo – que, segundo ele, está perto de se concretizar.

Há quatro anos comendo pratos "estranhos" e se comunicando por gestos, Eninho está brilhando no Jeonbuk e acredita que poderá entrar em campo, em breve, com as cores da seleção local.

- O técnico da seleção (Cho Kang Hee) foi meu treinador aqui (no Jeonbuk) e disse que me quer na seleção deles. O povo apoia, agora estou esperando a burocracia para eu me naturalizar – contou o jogador, em Itu, no interior de São Paulo, com o resto do time.

Para conquistar a confiança do comandante coreano e da torcida, Eninho, além de ter suado a camisa (literalmente) dentro das quatro linhas, também teve que se adaptar a uma cultura totalmente diferente da sua.

- Eu ainda não sei falar coreano, só palavrão (risos). Sofro quando vou a restaurantes em que as comidas não são desenhadas no cardápio. É difícil para fazer o pedido e principalmente comer (risos). Lá, em tudo vai pimenta, até na sopa. Nem baiano ia aguentar tanta pimenta. Quando venho para o Brasil, aproveito para levar arroz, feijão, essas coisas, porque não dá para comer a comida deles todos os dias.

Mas os pratos apimentados não são os únicos desafios para Edinho driblar. Com apenas mais um brasileiro no time - o ex-atacante do Palmeiras Luiz Henrique -, ele também sente falta das brincadeiras dos brasileiros.

- Aqui, o time é campeão, ninguém invade a coletiva para jogar água no técnico. As comemorações param no vestiário, e, na hora que o time sai de lá, parece que não aconteceu nada. Mas a gente se acostuma...

Eninho não foi o único que precisou se adaptar à cultura coreana. Luiz Henrique vive há cinco anos do outro lado do mundo e também teve que aprender a lidar com os coreanos.

- O bom daqui é que não tem preconceito, todo mundo respeita todo mundo. Duro mesmo são a comida e o idioma. Eu assino canais de televisão brasileiros para entender o que está rolando no mundo, mas, mesmo assim, é difícil. A gente acaba assistindo a muitos filmes, acho que eu vejo, no mínimo, uns cem por ano.

Pelo Brasil...

Coreano tamnbém é supersticioso. A vinda do Jeonbuk para o país tem uma explicação: no ano passado, após a preparação também no Brasil, o time foi campeão coreano. E acreditam que, este ano, podem repetir o feito.

- Depois do título, eles acharam que a viagem deu sorte ao time e, por isso, quiseram repetir este ano – justificou o preparador físico Fábio Lefunde.

A primeira parada da equipe coreana foi em Itu, onde o time ficou concentrado em um hotel por 15 dias. Agora, o Jeonbuk parte para Piracicaba, local onde fará um jogo-treino contra o XV de Novembro.

- Eles gostam muito do Brasil, só reclamam da chuva. Mas estamos em São Paulo, e, em janeiro, sempre chove.

Primeira Edição © 2011