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Um cenário do passado

22/05/2012 08:52

O estilo arquitetônico dos anos 20 era bem presente em Maceió até certo tempo. Acho que no começo dos anos 50, ainda podia se vislumbrar um acervo considerável desta formação arquitetônica de nossa cidade. Uma arquitetura com uma grande influência portuguesa, com certeza. Maceió parecia uma grande lapinha, com sua personalidade própria da formação urbanística original. Aquela coisa meio sem planejamento, e que foi crescendo e se espalhando, mas obedecendo toda uma linha arquitetônica. Era um conjunto harmonioso de rara beleza. Desde Bebedouro até o Comércio, passando pelo Farol e chegando a Avenida da Paz com sua extensão até a Pajussara, era uma paisagem meio européia, entre seu casario e sobrados. Quando olhamos as fotos antigas da cidade, vemos quantos exemplares construídos foram destruídos de maneira muito rápida. Alguma coisa que sobrou, foi devido a seus próprios proprietários, ou posse do governo. Assim, permaneceram intactos. Mas a construção civil sem nem uma regra, passou o trator de esteira em quase tudo, o que é uma pena. Na verdade, em todo país ocorreu isso por não termos mentalidade preservacionista.
Lembrava-me dessas coisas, depois que conversei com uma amiga de rara sensibilidade, quando ela lembrava a casa de seus avós na Pajussara, um bangalô que obedecia todo um estilo daquela orla no passado. Então eu lembrava que essas preocupações com a memória e o patrimônio, são coisas muito recentes aqui em Maceió. Nunca tivemos, na realidade,  políticas públicas em preservar uma cidade charmosa que antes existia. Deixamos, por outra, a cidade ser tragada por uma tal  modernidade, misturando-se o novo com o antigo, o que descaracterizou completamente nossa paisagem urbana. Inclusive, a própria arquitetura conceitual dos novos tempos, não teve nenhum critério em acompanhar um estilo que melhor nos atendesse, e que désse personalidade a nossa urbe. Quiseram copiar uma espécie de estilo Miami, o que não tem nada a ver com nossa cultura, nossas origens, nosso clima e nossas paisagens. Poderiam ter reservado espaços distanciados de nossos acervos, para instalar esse modernismo que contraria  nossa identidade. Um povo que não sabe preservar sua memória é um povo disperso e sem raiz.
Seria muito interessante que quando a gente passasse de barco pela nossa orla, pudéssemos ver aquela paisagem portuguesa de nossas casas e prédios, como estivéssemos avistando algo parecido com a paisagem das cidades portuguesas ainda hoje. Podia-se notar a linha harmoniosa do todo nas construções, obedecendo um só estilo nas suas faixadas. Isso para o turismo cultural seria muito significativo. Mas pagamos muito caro por um erro histórico, por dar as costas a nossa cultura, e pela incoerência. Políticas pela memória surgiram entre nós recentemente. Num país de analfabetos e semianalfabetos, gastar dinheiro com essas coisas é perda de tempo na cabeça de muitos. Mas alguns dividendos perdemos em decorrência disso, além de ter deixado de viver numa cidade charmosa e num cartão postal da civilização que era a Maceió dos anos 40 e 50, com seu conjunto arquitetônico dos anos 20.
Aquele movimento que fora feito para a preservação da Casa Rosada na Pajussara, já fora fruto de um despertar para essa política. Os investimentos que foram feitos em Jaraguá – destacando-se  ali o prédio da Associação Comercial como um exemplar de rara beleza, foi também um acordar para essas preocupações. Não queremos mais, e nem podemos a essa altura, trazer de volta o que se perdeu. Mas, o pouco que foi feito, ou o que venha a se fazer com o que resta, é sempre válido. Nunca é tarde para nada que se queira fazer.

cronicjf@gmail.com
 

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Hoje o mar não está pra peixe

11/04/2012 09:18

Por quem os sinos bradam? Olha, bradam por muita gente, e gente que muitas vezes nem os escuta. E você pensa meu caro, que existe alguém na bonança pensando em solidariedade, filantropia e compaixão? Quando se vê isso, há alguma coisa no bolso ou na alma. Esses ímpetos de sublimidade brotam no espírito humano quando se está à beira do abismo e do fracasso, ou quando não está chovendo na horta. Também há um momento em que as pessoas se tocam dessas virtudes, são aqueles instantes em que elas recebem de alguém essa mão amiga. Conheço um caso em que dois inimigos se tornaram amigos, pelo fato de um ter socorrido o outro em um acidente automobilístico. Talvez o vitimado tenha pensado: Ele poderia ter me abandonado ali mesmo, no entanto, me socorreu. Esse sentimento de agradecimento gerado pela compaixão do outro fez a auto-superação de toda contenda que havia entre os dois. Como são estranhas essas indulgências culpáveis do foro íntimo... No que pese, sejamos maus na concepção freudiana, também temos uma centelha de bondade. E essa bondade talvez tenha sido a razão da sobrevivência da raça humana até os presentes dias, porque por outra, já teríamos sido uma espécie em extinção.

Tem dias que os sinos não bradam. Aquele, por exemplo, em que não aparece um freguês na porta da quitanda; quando o jornalista procura a manchete ideal e não encontra; ou o momento em que o radialista fica sem assunto e apenas toca música. São instantes de oscilações cósmicas na grande vereda do caminhar, neste incompreensível mundo dos fatos. A acertiva melhor é a de que o tempo leva e o tempo trás, como o fluxo das ondas dos surfistas. Aliás, os surfistas são os filósofos da paciência, pois sabem esperar o momento dos ventos nordeste, o que eles chamam de vento terral. Às vezes fico observando o equilíbrio desses malabaristas das vagas, quando me ocorre está aqui nas imediações do Posto Sete, enquanto tomo uma água de coco e pego um iodo da maresia. Pra nossa felicidade ainda não puseram na embalagem todos os cocos e nem cobram taxa da brisa mar. Nos dias de hoje para sobreviver, muita gente é equilibrista e malabarista na vida como aqueles prancheiros do mar.

A gente vai à praia à noite para arejar-se um pouco. Foi uma frustração medonha o que ocorreu com os pescadores. Eles sabem que o breu da marinha é cheio de muitas surpresas, e que os peixes em certos momentos são muito escorregadios. Enquanto o relógio corria entre um chope gelado e o olhar curioso e confuso de alguns turistas, a rede, pra desgosto da platéia, saiu vazia. Talvez aqueles homens do mar não tenham observado a lua. Aliás, a lua observei e ela não apareceu. Quem sabe, talvez por isso, tenha sido justo motivo de algum gavião não ter pescado alguém?

cronicjf@gmail.com
 

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Um sopro de música no ar

05/01/2012 21:40

Veio-me pela janela, repetidas e insistentes frases musicais, tiradas de um saxofone de certo desconhecido aspirante de músico, residente no quarteirão. Todo dia lá está aquele jovem com seu instrumento inundando a rua com sua arte. No começo, fazia seu sax gemer meio desafinado, o que não era nenhum pecado, afinal, disse certa vez Tom Jobim em uma de suas canções, que no peito de um desafinado também bate um coração. Ultimamente ele teve grandes progressos, pois já consegue articular com certa segurança algumas linhas melódicas. Seu instrumento sopra solitário, levando aos ouvidos da vizinhança a linguagem universal da música, que é sutil, acalentadora, encantadora não só para os homens, mas também para os animais, e creio eu, que até para as plantas.
Lembro-me ainda menino, na porta do salão sede da Banda de Música Municipal, bisbilhotando o ensaio geral. De todos os instrumentos, o que mais me tocava no coração era exatamente o saxofone. Concomitantemente, a tuba com seu contraponto no baixo ainda me dava uma sensação que só os ouvidos mais apurados podem sentir. Somando-se a toda orquestração, aquela base rítmica e segura da tuba e as entradas realçantes dos saxes no dobrado, provocavam-me verdadeiros êxtases no espírito. E eu, ficava ali vendo as broncas que o mestre regente dava nos músicos, na intenção de tirar deles a melhor execução possível. Igualmente, via sua cara de entusiasmo quando eles respondiam no sopro e em harmonia aquilo que estava grafado nas partituras.
Nos últimos tempos, tenho sentido que o ensino da música erudita anda meio capenga. Tenho esperança e me animo toda vez que ouço esse garoto saxofonista do bairro, com sua força de vontade de auto-superar-se e dominar o instrumento nas suas primárias execuções. A formação musical para a juventude é fundamental em seu currículo para a vida, e esse nosso protótipo de Pixinguinha já descobriu isso. Que bom!Ela é como a matemática, ajuda a raciocinar, por outro lado, é disciplinar e é cidadã. Musica nas escolas ajuda a formar cidadãos mais cultos e menos violentos. É um elemento transformador para uma sociedade emergente que aspira dias mais pacíficos e mais alegres. O quê seria do mundo sem as cores e sem os sons? O quê seria do homem se não tivesse descoberto a música? Como bem definiu Victor Hugo, a música é o barulho que pensa. Isso me faz lembrar do saudoso cônego Helio Lessa, quando em um de seus sermões no altar do Livramento, disse: “a música é a única das artes que acompanha a alma do homem para o céu”. Foi bem original essa concepção divina, por parte daquele grande orador sacro de nossa terra, em um de seus grandes momentos de elogios às peças clássicas.


Comenta-se no meio cultural que no Estado de alagoas existe apenas um músico empregado. Que pena... Que esquecimento... logo com um povo tão musical, como todo brasileiro, que tem a música no sangue. É de fato um contra-senso. Lembremo-nos sempre do que fizeram pela música no Brasil esses dois nordestinos pernambucanos, os maestros: Guerra Peixe e Moacir Santos. A nível local, encarnemos-nos no espírito dos maestros Fonfom e Heckel Tavares, os quais com sua batuta alagoana conseguiram reconhecimento nacional. E tantos outros que com ideal e resignação labutam nesta seara por levar as pessoas o conhecimento da boa música. Firmemos bons augúrios para que daqui pra um futuro próximo, tenhamos uma política pública mais voltada ao apoio dos conservatórios; das fanfarras; dos orfeões; e de mais professores especializados nas escolas públicas. Sonhemos com toda essa criançada, dedicando um pouco de sua explosão de hormônios e energia, para essa arte, que é fundamental na complementação da formação de um homem civilizado.

cronicjf@gmail.com

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